Crítica | Echo Boomers: A Geração Esquecida

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Por mais que se trate de lugar-comum, nunca é demais lembrar que o valor de uma obra não está vinculado à relevância – social, artística, pessoal ou o que quer que seja – do seu tema. É possível fazer cinema ruim com a melhor das intenções. Não faltam exemplos de projetos que, tocando em questões socialmente em voga, tentam se ancorar num presumido peso do seu argumento, mas não apresentam nada de singular enquanto expressão de uma visão ou sensibilidade específica sobre aquelas questões.

Nos últimos anos, tem crescido a produção e a atenção dada pelo público a obras que tocam em facetas próprias do capitalismo tardio, como, de modo geral, o desemprego endêmico, o aprofundamento das contradições de classe, a precarização dos vínculos e o esgarçamento do tecido social. Evidente que o enfrentamento de questões próprias das dinâmicas de classe não são novidade no audiovisual, mas mais recentemente essa tendência parece ter se tornado mais presente, talvez como sintoma e forma de purgar, em algum grau, a saturação do paradigma neoliberal.

Para citar apenas dois exemplos recentíssimos de filmes oriundos de grandes polos do cinema mundial que alcançaram sucesso de público e crítica, vale mencionar os ótimos Joias Brutas (John Safdie e Ben Safdie, 2019) e Parasita (Bong Joon-ho, 2019). Cito os dois porque representam bem a diversidade de abordagens possíveis diante de um mesmo pano de fundo. Enquanto o filme dos Safdie é bastante direto na aproximação entre espectador e protagonista como forma de imersão num frenesi de altos e baixos, de risco/recompensa, ofertando uma visão que compreende tanto o apelo catártico quanto a liquidez duma vida pautada como eterno jogo, o thriller/comédia/terror social de Bong, em suas modulações de gênero e linguagem, segue uma linha mais mordaz e performática para comentar os vícios inerentes às relações atravessadas pela crescente discrepância de classes. São duas obras que tomam por objeto sintomas advindos de uma mesma estrutura, mas apresentam percepções próprias sobre seu material, tanto em conteúdo como em forma.

Passamos, então, a falar detidamente de Echo Boomers: A Geração Esquecida, filme dirigido por Seth Savoy. O enredo gira em torno de um grupo de jovens adultos que, como forma de expressão de revolta contra uma realidade econômica encurtadora de garantias e oportunidades, passa a invadir e saquear mansões. A história é contada através da narração pós-prisão do protagonista vivido por Patrick Schwarzenegger, o que de antemão retira do filme a possibilidade de se sustentar pelo fator-surpresa. Sabendo-se desde o início qual será o desfecho da aventura retratada, resta extrair interesse do percurso que levará até lá. O problema é que o interesse simplesmente não encontra  material onde repousar.

O diretor parece não ter qualquer ideia própria a oferecer a partir da história posta em suas mãos, e o filme acaba soando inteiramente como mera ilustração duma história que chegou aos ouvidos de alguém que achou que seria interessante transformá-la em produto audiovisual para surfar numa onda do momento. A experiência de assistir a Echo Boomers, honestamente, não deve ser muito diferente da de ler a um resumo de seu enredo. Vale pelo apelo geral do argumento e pela curiosidade natural que qualquer história desperta, mas não muito mais do que isso.

É sintomático dessa falta de singularidade da obra que ela, em seus pouco mais de noventa minutos, atire para tantos lados e não se comprometa com nenhum deles. Já no prólogo, trazem-se duas tendências que, a uma primeira vista, pareceriam poder guiar a narrativa. A situação de sufoco econômico a que se submetem os jovens adultos desta geração nos Estados Unidos é ilustrada a partir de uma sucessão de imagens e textos de telejornais. Fala-se em termos explícitos dos níveis de desemprego, de débito estudantil, de déficit habitacional, entre outras coisas. Apresenta-se o quadro geral de uma sociedade desalentada. Logo em seguida, parte-se para a ação. A primeira cena de assalto é filmada com altas doses de grafismo. A linguagem abertamente cartunesca, apresentada logo após o início informativo/documental, parece sugerir que Savoy, sabedor da generalidade do texto a sua disposição, investirá, mesmo que sem muita inspiração, numa exploração imagética e sensorial dessa catarse intrínseca aos atos praticados pelo grupo. Não é o caso, porém. À parte essa primeira sequência, não há um momento de ação sequer que seja minimamente memorável. Nem mesmo o ato final, que traz uma última invasão como suposto clímax do filme, apresenta qualquer traço próprio.

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Paralelamente às sequências de ação que vão se sucedendo na tela sem despertar nada além de indiferença, o filme tenta trabalhar uma dinâmica de organismo coletivo dentro do grupo para depois desconstruí-la a partir da ramificação da trama em possíveis traições. O problema é que, excetuado o protagonista, o antagonista e um coadjuvante em específico, nenhum dos personagens possui qualquer grau de individualidade que os torne distinguíveis entre si. E mesmo os que o espectador conhece pelo nome não possuem mais do que uma dimensão. Todos estão lá para preencher um tipo ideal. Há o inocente corrompido, o traiçoeiro, o irascível etc. Não há grau de autonomia entre eles e tampouco dinâmica que os torne perceptíveis como célula coletiva. Até Michael Shannon, que costuma elevar qualquer trabalho, parece no piloto-automático aqui. O filme é pobre tanto quando tenta ser “sistemático”, analisando seus personagens enquanto integrantes dum tecido social, como quando tenta ser pessoal, perscrutando uma visão mais aproximada deles.

Essa falta de personalidade, aliás, é bastante sentida num momento em que se troca de narrador. Por volta da metade da projeção, deixa-se de lado por alguns instantes o relato do protagonista e ouvimos a voz de uma coadjuvante expondo sua perspectiva dos acontecimentos. Presume-se, talvez ingenuamente, que ela trará uma visão capaz de subverter a maneira como o espectador percebe os fatos ou ao menos adicionará algum toque diferente do tratamento tosco e superficialmente moralista apresentado até ali. Ledo engano. Não fosse o fato de se tratar de uma voz feminina, era possível até que não se notasse a mudança na narração. Nenhum personagem parece ter nada a acrescentar, e todos os artifícios de que o diretor lança mão – e não são poucos – acabam soando como bengalas para sustentar um material que tenta em vão esconder sua pobreza.

No fim das contas, Echo Boomers se apresenta menos como um filme enquanto expressão de uma unidade artística e mais como um esqueleto de argumento genérico em torno do qual se tateia à procura de algo que possa despertar o interesse do público. Elementos avulsos como pertencimento, revolta social, traição familiar, interesse amoroso e outros passam pela tela como ingredientes de um Spoleto da vida são jogados num prato. E o pior é que, aqui, não é só um conceito orientador do todo que faz falta. Mesmo os ingredientes isoladamente considerados são ruins. O resultado é uma obra que, mesmo atirando tanta coisa ao espectador, chama mais a atenção pelo que ela não é do que pelo que eventualmente tenta ser. Pelo menos é curto.

Revisão Crítica

NOTA
Felipe Limahttp://estacaonerd.com
Formado em Direito. Palpiteiro em Cinema.

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