Nos primeiros minutos de Eu, Meu Pai e um Bebê, a sensação é um pouco incômoda. Não porque a produção choque, mas porque parece familiar demais. A jovem adulta desorganizada, o sexo casual, a gravidez inesperada, a vida emocional em frangalhos, tudo isso a gente reconhece de longe. Dá até para achar que a produção chegou atrasada nessa conversa. Só que, conforme os episódios avançam, fica claro que o interesse não está no ponto de partida, e sim no momento em que ela decide parar e olhar para esse caos com mais cuidado.
Gemma (Aimee Lou Wood) tem 24 anos, trabalha como cabeleireira em Stockport e vive do jeito que dá: festas, encontros sem compromisso, pouco planejamento e uma confiança meio torta de que tudo se ajeita depois. Até que um sexo sem camisinha, em circunstâncias tão absurdas quanto pouco glamourosas, vira o eixo em torno do qual a vida dela passa a girar. A narrativa não romantiza esse erro, mas também se recusa a tratá-lo como punição moral. O tom é outro: cansado, irônico, às vezes cruel, quase sempre honesto.
A gravidez chega no pior momento possível. A colega de apartamento some. A mãe, Davina (Susan Lynch), decide recomeçar a vida em outro país com um novo namorado e parece pouco interessada no que deixa para trás. A irmã está presa. Os amigos se perderam no caminho. A grana é curta. O apoio emocional, menor ainda. O que sobra é Malcolm (David Morrissey), um pai ausente, recém-divorciado, emocionalmente analfabeto e totalmente despreparado para cuidar não só de uma filha grávida, mas de si mesmo.
É dessa convivência forçada que Eu, Meu Pai e um Bebê tira sua força.

David Morrissey, em um registro menos habitual, encontra um equilíbrio delicado entre patetismo e ternura. Seu Malcolm é cansativo, por vezes irritante, mas nunca caricato. A narrativa acerta ao não transformar sua incompetência doméstica apenas em recurso cômico. Cada erro vira mais um peso invisível sobre Gemma, que já carrega um corpo em transformação, uma vida instável e uma avalanche de decisões que ninguém parece disposto a dividir.
Aimee Lou Wood, por sua vez, sustenta Gemma com uma combinação precisa de caos, vulnerabilidade e humor seco, tipicamente britânico. Há algo de profundamente contemporâneo na forma como ela interpreta essa jovem adulta que erra muito, sabe que erra e ainda assim segue em frente porque não existe alternativa melhor. Gemma não é manifesto nem exemplo. É alguém tentando atravessar o dia, um de cada vez.
Ao redor deles orbitam personagens que ajudam a manter o tom agridoce da narrativa, como Cherry (Taj Atwal), amiga reencontrada na base da necessidade, e Derek (David Fynn), o senhorio invasivo e socialmente deslocado que acaba virando uma espécie de apoio emocional indesejado.
Nem tudo funciona o tempo todo. Eu, Meu Pai e um Bebê oscila entre um realismo quase doloroso e momentos de humor mais exagerado, que nem sempre conversam bem com a proposta emocional apresentada. Algumas situações parecem existir mais porque “funcionam na ficção” do que porque respeitam a lógica cotidiana que o próprio roteiro tenta construir. Em certos momentos, as piadas soam mais afiadas no papel do que na tela.
Ainda assim, há algo de muito honesto aqui. A obra entende que crescer não é um arco bonito. Que reparar relações leva tempo. Que gravidez não resolve vazio afetivo nenhum. Que família tem menos a ver com estrutura ideal e mais com quem aparece quando todo mundo já foi embora.
Eu, Meu Pai e um Bebê é uma comédia que ri, mas suspira. Que faz piada sem aliviar o peso das coisas. E que encontra sua melhor versão quando abaixa o volume ao redor para observar duas pessoas emocionalmente quebradas tentando, do jeito que conseguem, não se quebrar outra vez.
Não é perfeita. Mas é afiada, sensível e estranhamente reconfortante. Uma produção que entende que o caos nem sempre se resolve, às vezes ele só aprende a caber dentro da rotina. E tudo bem.
A primeira temporada de Eu, Meu Pai e um Bebê estreia no Brasil pelo Filmelier+ nesta quinta-feira (05).


