ter, 6 janeiro 2026

Crítica | Família de Aluguel

Publicidade

‘Família de Aluguel’ é o segundo longa-metragem da filmografia de Hikari, diretora japonesa reconhecida mundialmente após o seu curta-metragem de estreia, ‘Tsuyako’ (2011) rodar festivais de cinema pelo mundo e um prêmio no DGA Student Award, premiação do Sindicato dos Diretores dos Estados Unidos. Ela retorna na direção para um longa estrelado por Brendan Fraser, premiado Melhor Ator no Oscar 2023 pela sua atuação em ‘A Baleia’ (2022) e conhecido em Hollywood por seus papéis em ‘A Múmia’ (1999) e ‘O Retorno da Múmia’ (2001).

Frustrado com a sua carreira como ator em Tóquio, Phillip (interpretado por Brendan Fraser) decide entrar em um novo emprego: trabalhar para uma agência japonesa que aluga “famílias e parentes”.

Acho que, como principal ponto de partida, o filme se ancora num desconforto muito próprio do nosso tempo: a busca pela felicidade instantânea como paliativo para o vazio cotidiano. O filme observa esse fenômeno com delicadeza e o faz a partir da construção das relações artificiais que aos poucos ganham densidade emocional. Phillip, esse ator frustrado com sua carreira, entra nesse universo como quem aceita um papel menor para sobreviver, mas acaba sendo engolido pela lógica da empresa e pelos vínculos que ela produz. A relação com Kikuo (interpretado por Akira Emoto) e sua “filha” Mia (Iinterpretada por Shannon Mahina Gorman) é muito marcante pois nasce como uma encenação funcional para o que aquele trabalho pedia e evolui para algo que ameaça escapar do controle, revelando o quanto essas conexões alugadas funcionam como anestesia para solidões mais profundas. A obra sugere com isso que, em um mundo acelerado e utilitário, até o afeto pode ser terceirizado, embalado e consumido sob demanda, sem que isso o torne menos perigoso ou menos real para quem dele depende.

Publicidade
Créditos: Searchlight Pictures/Sight Unseen Pictures

Há também um estudo silencioso sobre dependência, que atravessa tanto Phillip quanto Shinji (interpretado por Takehiro Hira, o idealizador do projeto. Phillip depende do olhar do outro para existir, como ator e como sujeito, enquanto Shinji parece depender da própria estrutura que criou, usando a empresa como justificativa ética para relações que ele mesmo não consegue sustentar fora do contrato. E Hikari filma esses personagens com uma câmera paciente, quase contemplativa, mas é justamente aí que o filme encontra seu ponto mais frágil. Em alguns momentos, o ritmo desacelera a ponto de diluir a força do debate que propõe, como se a narrativa hesitasse em avançar para as consequências mais duras de suas ideias. Essa lentidão não chega a comprometer todo o filme, mas cria zonas de estagnação em que a reflexão perde impacto e o conflito se rarefaz. 

‘Família de Aluguel’ se mostra como um retrato sensível e inquietante de relações mediadas pela carência e pela performance, um filme que prefere o sussurro ao grito, mesmo quando o tema pede confronto. É nessa tensão entre sutileza e inércia que o longa reside, revelando tanto sua elegância quanto, infelizmente, suas limitações.

Publicidade

Publicidade

Destaque

Crítica | Eddington

Eddington se passa em Maio de 2020, durante a...

Crítica | Família de Aluguel

‘Família de Aluguel’ é o segundo longa-metragem da filmografia...

Critics Choice Awards | Confira a lista completa dos vencedores

Aconteceu ontem (04/01) a 31ª edição do Critics Choice Awards...
Rui Filho
Rui Filhohttp://estacaonerd.com
Recifense, cinéfilo e estudante de Cinema desde 2020, graduando em Publicidade e Propaganda. Apaixonado por arte, amante dos esportes, curioso sobre tudo e sempre em busca de algo novo para assistir.
‘Família de Aluguel’ é o segundo longa-metragem da filmografia de Hikari, diretora japonesa reconhecida mundialmente após o seu curta-metragem de estreia, ‘Tsuyako’ (2011) rodar festivais de cinema pelo mundo e um prêmio no DGA Student Award, premiação do Sindicato dos Diretores dos Estados Unidos....Crítica | Família de Aluguel