ter, 23 junho 2026

Crítica | Hacks (5ª temporada)

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Algumas histórias de amor acabam em casamento. Outras terminam em separação. Deborah Vance e Ava Daniels passaram cinco temporadas ocupando um espaço muito mais difícil de definir. São amigas, parceiras criativas, mentoras, rivais, família improvisada e, em alguns momentos, a principal dor de cabeça uma da outra. Hacks sempre soube que os relacionamentos mais importantes da vida raramente cabem em uma única palavra. O último ano da série entende isso melhor do que nunca.

Quando a série estreou, em 2021, parecia uma ótima comédia sobre um choque de gerações: uma lenda do stand-up tentando escapar da irrelevância e uma roteirista jovem convencida de que sabia exatamente como o mundo deveria funcionar. Cinco temporadas depois, o que permanece não é a disputa entre elas, mas a intimidade construída ao longo do caminho.

A quinta temporada encontra Deborah (Jean Smart) diante de uma pergunta inevitável. Depois de décadas correndo atrás do próximo palco, do próximo contrato e da próxima conquista, o que ainda resta para alcançar? A falsa notícia de sua morte, que abre o novo ano, funciona como um empurrão para essa reflexão. Pela primeira vez, Deborah parece obrigada a encarar não apenas a carreira que construiu, mas também a maneira como deseja ser lembrada.

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O tema do legado atravessa toda a temporada, mas Hacks evita transformá-lo em algo solene. A série continua interessada demais nas contradições dos seus personagens para cair na armadilha da homenagem nostálgica. Deborah segue vaidosa, controladora e incapaz de resistir a uma boa oportunidade de autopromoção. A diferença é que agora ela parece olhar para a própria trajetória com menos necessidade de provar alguma coisa.

Jean Smart continua sendo o coração absoluto da produção. Poucas atrizes dominam tão bem o equilíbrio entre humor e vulnerabilidade. Deborah pode atravessar uma cena distribuindo comentários cruéis e, segundos depois, revelar inseguranças que passou anos tentando esconder. Smart faz tudo parecer natural.

Hannah Einbinder também encontra seu melhor trabalho na série. Ava amadureceu bastante desde a primeira temporada, mas sem perder as características que a tornaram interessante. Continua impulsiva, ansiosa e frequentemente convencida de que está certa. A diferença é que aprendeu a reconhecer o valor da pessoa à sua frente. A série entende que crescer não significa abandonar quem você era, apenas aprender a conviver melhor com isso.

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A dinâmica entre as duas muda de forma perceptível neste último ano. Durante muito tempo, a relação funcionou por meio do atrito. Deborah e Ava passavam tanto tempo brigando quanto se admirando. Muitas das melhores cenas da série surgiam justamente desse confronto constante entre duas mulheres incapazes de recuar.

Agora, o vínculo entre elas opera de outra maneira. Há mais cumplicidade, mais escuta e uma confiança construída ao longo de anos de convivência. Parte da eletricidade dos primeiros anos inevitavelmente diminui com essa escolha. Alguns episódios sentem falta daquela tensão que costumava impulsionar a narrativa. Em compensação, a temporada encontra beleza em algo mais raro: acompanhar duas pessoas que finalmente aceitam a importância que têm uma para a outra.

O elenco de apoio continua sendo um dos grandes trunfos da série. Jimmy (Paul W. Downs) e Kayla (Megan Stalter) consolidam de vez seu espaço como uma das duplas cômicas mais divertidas da televisão recente. O crescimento de Kayla ao longo das temporadas talvez seja uma das evoluções mais inesperadas de Hacks. Marcus (Carl Clemons-Hopkins) também recebe material mais consistente, enquanto as participações especiais seguem aparecendo com a confiança de quem conhece perfeitamente o tom desse universo.

Mesmo quando dedica mais tempo às emoções dos personagens, a série nunca esquece de ser engraçada. Isso parece simples, mas não é. Muitas comédias contemporâneas acabaram migrando para o drama conforme amadureciam. Hacks nunca perdeu a confiança no próprio humor. As piadas continuam surgindo nos momentos certos porque fazem parte da forma como esses personagens se relacionam entre si.

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O episódio final tropeça levemente ao introduzir um conflito dramático que teria ganhado mais força se tivesse sido desenvolvido com mais antecedência. Algumas resoluções acontecem rápido demais. Ainda assim, a série consegue atravessar esse obstáculo porque mantém o foco naquilo que realmente importa: a relação entre Deborah e Ava.

E é justamente ali que encontra seu melhor encerramento.

Depois de uma temporada inteira falando sobre legado, fama e o medo de desaparecer, Hacks termina lembrando que seu maior acerto nunca esteve nos bastidores da televisão ou nas observações sobre a indústria do entretenimento. Sempre esteve nessa conexão improvável entre duas mulheres que entraram na vida uma da outra quando menos esperavam.

A cena final resume isso com uma simplicidade desarmante. Deborah e Ava voltam a fazer o que sempre fizeram de melhor: discutir uma piada. Não há grande discurso. Não há uma tentativa de explicar o que elas significam uma para a outra. A série confia que o público já sabe.

Quando os créditos chegam, a sensação não é de conclusão definitiva. Parece mais que fomos convidados a sair da sala enquanto a conversa continua acontecendo.

E talvez não exista despedida melhor para Hacks do que essa. Afinal, algumas relações são importantes demais para caber em uma única definição. Deborah e Ava passaram cinco temporadas tentando descobrir o que eram uma para a outra. O fim da série entende que certas perguntas não precisam de resposta. Só precisam de mais uma conversa.

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