Em Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, um dos mais importantes escritores do cânone ocidental William Shakespeare vive uma tragédia ao lado de sua esposa Agnes Shakespeare quando o casal perde seu filho de 11 anos para uma das várias pragas que assolaram o século XVI. Hamnet era o nome do menino e, nessa história ficcional sobre a vida doméstica de Shakespeare, Agnes é a narradora e o ponto de vista fundamental da narrativa, demonstrando o luto que acompanha o fim precoce da vida do seu herdeiro.
A diretora Chloé Zhao (Eternos) mostra como ela é uma das cineastas mais sensíveis da atualidade, ao conseguir capturar a vastidão da natureza em paralelo à intimidade da natureza humana, Zhao usa a história da família de William Shakespeare para explorar a arte. Mostrando que ela não é apenas um registro da vida, mas um mecanismo capaz de emular sentimentos. A diretora mergulha na Inglaterra rural do final do século XVI para mostrar como a perda de um filho, tornou-se o catalisador da maior obra da literatura ocidental.

Os locais, cenários e figurinos vistos são perfeitos! E o design de produção deve (e merece) uma indicação ao Oscar. Tudo relacionado a época é reproduzido com perfeição. A fotografia é outro destaque, a filmagem consegue de forma poética, transformar cada cena em um pintura que leva o espectador a entender como a arte é sensível e consegue informar os sentimentos dos personagens sem o uso de palavras momentos. A fotografia desta produção, é uma obra prima do cinema!
O roteiro baseado no romance homônimo de 2020 de Maggie O’Farrell, é adaptado pela autora em parceria com Zhao e consegue com sensibilidade, mostrar quem são os personagens centrais primeiro investindo na dinâmica entre eles e depois fazendo uma análise da ausência de interação que acontece após a tragédia que assola o casal. O ritmo em que vemos isso é cadenciado e quase que estático, mas ele é justificado e não deve incomodar o espectador que abraçar o ritmo contemplativo da obra.

O filme ilustra como sentimentos de perda e desespero podem ter sido lapidados em um ritual de cura e um tributo à memória por William Shakespeare. Como a produção foca apena no ponto de vista da personagem de Jessie Buckley (A Filha Perdida) essa é a interpretação que podemos ter. Por falar em Buckley, ela é a âncora emocional da narrativa. A atriz personifica uma conexão mística com o mundo natural e mostra a resiliência devastadora que uma mãe precisa ter diante da morte do filho. Sua atuação transita do êxtase materno ao abismo do luto com uma autenticidade rara. Está é sem dúvida, uma atuação sublime e que merece (e deve) ser indicada ao Oscar 2026.
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet é um filme doloroso, mas estranhamente reconfortante, pois nos ensina que a beleza pode surgir até da dor mais profunda e que a arte pode imortalizar sentimentos e memórias. Leve um lenço para assistir a essa impressionante experiência sensorial.


