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    Crítica | Lola e Seus Irmãos

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    Imagine que você vai jantar na casa de um amigo, e ele coloca um prato bem fundo na sua frente a mesa. O prato fica ali a noite toda, e você fica esperando te servirem muita comida, mas o prato mesmo profundo continua vazio. Essa é a exata sensação que se tem com o filme “Lola e seus irmãos”, mais umas das diversas produções francesas que estão chegando aos cinemas brasileiros neste ano. 

    O filme cumpre sua promessa de aprofundar nas raízes os relacionamentos e vidas pessoais dos irmãos Lola, Benoît e Pierre. Lola é uma advogada que trabalha em casos de divórcio e acaba se apaixonando por um de seus clientes, recém-divorciado. Já Benoît, se encontra em seu terceiro casamento, e tem que lidar com as diferenças conjugais e seu maior desafio: a paternidade. Pierre se encontra em uma situação um pouco mais complicada, criando um filho, resolvendo seus problemas com a ex-esposa e tendo que lidar com a maior crise profissional e financeira de sua vida. Mesmo com todas as adversidades de suas vidas pessoais, os irmãos sempre permaneceram unidos.

    Mas, infelizmente é só isso. Os personagens são tratados da forma mais aprofundada possível, tendo suas motivações, medos, felicidades expostas de forma clara e recorrente, mas o filme não tem um real norte. Não existe um conflito maior a ser solucionado, não existe sequer uma jornada para que ela tenha um fim. Durante vários momentos no filme você pode se perguntar “a que ponto exatamente eles querem chegar?” e a resposta só vem quando os créditos finais começam a subir: “nenhum”. 


    Talvez exista algo de belo por trás de mostrar uma história sem recorrer a um real objetivo, mas o espectador cava, cava, e não acha esse “tesouro”.

    Por outro lado, esta e mais algumas produções de fora do mainstreaming – principalmente o estadunidense – tem se apropriado do que a cultura japonesa já chama há anos de ‘Ma’. O ‘Ma’, muito utilizado nas famosas produções dos Studios Ghibli, é definido como “O vazio com um propósito”. Entre tantos filmes repletos de ação, diálogos extensos e até mesmo desnecessários, e tantos elementos visuais calculados para prender a atenção do espectador, nós temos o vazio. Esse vazio raramente tem sido trazido em produções cinematográficas, mas tem se tornado mais frequente em produções fora do eixo americano de produção. Esse vazio são pequenos momentos de apreciação, de calmaria, muitas vezes onde o personagem só senta pra comer algo, ou passa alguns minutos ou até segundos em silêncio apreciando uma bela paisagem. Esses pequenos vazios são necessários muitas vezes em termos técnicos de roteirização para momentos de reflexão dos personagens, quebras de clímax estratégicas e entre tantas outras. Mas para o espectador esse vazio acaba criando um novo sentido. Ele pode ser um momento de reflexão para o próprio espectador, ou só alguns poucos minutos de calmaria que tem a possibilidade de trazer segundos de paz que podem marcar toda uma experiência cinematográfica. E ‘Lola e seus irmãos’ é com certeza uma demonstração prática do uso do ‘Ma’, seja por um breve instante de silêncio, ou por um diálogo curto, sem rodeios. 

    Por mais que possa ser considerado um filme mediano, ‘Lola e seus irmãos’ merece atenção não somente enquanto produção, mas quanto a tudo que representa.

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