Lucky, a ser lançado no Brasil na próxima quinta, aborda o cotidiano de um senhor (Lucky, interpretado por Harry Dean Stanton) de 90 anos de idade, ateu, tabagista, sistemático, que espera sua morte enquanto executa as mesmas atividades todos os dias.

O cineasta John Carroll Lynch (Fargo, American Horror Story, Ilha do Medo) – que não tem parentesco com David Lynch – e o roteirista Logan Sparks afirmam ter se inspirado na vida de Stanton para realizar o filme. Entre as semelhanças, assim como o Lucky, Harry Stanton serviu como cozinheiro na marinha norte-americana durante o conflito do Pacífico na Segunda Guerra Mundial. O ator faleceu em setembro desse ano, aos 91 anos, sendo Lucky sua última atuação. O ator cantava, tal qual seu personagem.

David Lynch – que interpreta no filme o personagem Howard – pensou em Stanton para viver Frank em Blue Velvet (1986), porém, ele se recusou a interpretá-lo; depois trabalhou com o diretor em Um Coração Selvagem (1990) e marcou presença em outros de seus filmes como Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer (1992), Uma História Real (1999) e Império dos Sonhos (2006).

Nessa cidadezinha no meio do deserto no estado do Arizona, Lucky se mistura com o meio em que vive. É um homem extremamente sistemático com pinta de cowboy que relembra os tempos de serviço na marinha americana. Ainda que se passe nesse tipo de localidade, o filme não é um western e há a predominância de planos médios, abertos e fechados. Devido à predominância desse tipo de plano, aliado à carga emocional, em alguns momentos, torna-se claustrofóbico e cansativo.

Em meio à sua rotina diária, Presidente Roosevelt, o cágado de seu amigo Howard, foge e, no dia seguinte, Lucky cai sem motivos aparentes no chão de sua casa. Essa queda faz com que reflita sobre sua morte, ainda que o médico fale que tudo está bem e que não vê necessidade em ele parar de fumar. Ele não acredita em ressurreição ou reencarnação, para ele, não há nada depois da morte. Assim, continua a viver sua vida normalmente, em busca de um lugar de contentamento e alegria em sua jornada para a morte. Sua filosofia é que se vamos voltar ao nada, a única coisa que podemos fazer é sorrir. Isso se torna explícito na conversa entre Howard e Lucky, em que falam sobre uma menina budista que, nos confrontos da Guerra, encarou a morte – os soldados – com um sorrisão no rosto, desafiando-a. É isso o que Lucky faz ao longo de seus últimos anos de vida.

Nessa mesma cena, o personagem Howard ressalta a importância de seu cágado quanto animal de estimação e companheiro de vida. O animal inicia o filme fugindo de casa em direção ao deserto e, ao final, retornando, enquanto Lucky some na paisagem do deserto, como uma alusão à situação em que o personagem se encontra.

O elenco do filme é formado também por Ron Livingston, Beth Grant, Tom Skerritt, Barry Shabaka Henley e Yvonne Huff. Foi filmado em apenas 20 dias. É uma jornada espiritual. Não é sobre morrer, mas viver acima de tudo. E acabou por se tornar uma homenagem a Harry Dean Stanton.