Início Cinema Crítica | Mães Paralelas (Madres Paralelas)

    Crítica | Mães Paralelas (Madres Paralelas)

    0
    750

    Ainda que não se trate de algo propriamente novo em sua filmografia, Almodóvar parece especialmente dedicado em seus filmes a trabalhar o tempo em larga duração histórica, lançando um olhar para seus efeitos sobre personagens e ambientes. Desde o pesaroso Julieta, passando pelo intimista Dor e Glória e chegando agora ao novelesco Mães Paralelas, tem sido comum ao autor dotar suas narrativas de uma dialética entre passado, presente e futuro para extrair daí não impressões tópicas, mas algo mais aproximado do que seria uma sensibilidade atemporal sobre os objetos de suas histórias.

    Em Mães Paralelas, acompanhamos a história de Janis (Penélope Cruz) e Ana (Milena Smit), duas mulheres solteiras que, grávidas, se conhecem no hospital à beira de darem a luz e criam um laço que se estenderá e ramificará por toda a história. Em paralelo, seguimos os esforços de Janis para conseguir a exumação dos cadáveres dos antepassados de sua família e da vila onde nasceu, vítimas de assassinatos políticos perpetrados pelos franquistas durante a guerra civil espanhola. Não bastasse, acompanham-se também as idas e vindas de Janis em seu relacionamento com Arturo (Israel Elejalde), as frustrações envolvendo o equilíbrio entre a maternidade e sua vontade de retornar ao trabalho de fotógrafa, as intrincadas relações familiares de Ana e Arturo, entre outras coisas.

    Se parece haver muitos focos para um só filme, é porque é essa a intenção de Almodóvar. Notoriamente conhecido pela verve novelesca de seu cinema, aqui o diretor busca levar ao extremo essa tendência. Sua protagonista, é verdade, tem conflitos centrais que se estendem por toda a duração da narrativa, mas o filme se permite manter abertura para a entrada de tramas laterais envolvendo coadjuvantes diversos. Como numa novela, há núcleos que se distinguem em tom e progressão dramática, mas todos eles vão compor, ao fim, algo único e bem resolvido em sua multiplicidade. Assim, por exemplo, se em determinada passagem o diretor flerta com naturalidade a um encaminhamento ao thriller com toques de terror erótico na relação de duas personagens para depois, com a mesma naturalidade, abandonar tal desvio e voltar a uma tendência de apaziguamento dramático, é porque é justamente nesse sentido que se direciona toda a energia do filme.


    Mais do que qualquer outra coisa, Mães Paralelas é uma obra definida por esse eterno movimento de reconciliação dos personagens consigo mesmos e com o seu entorno. Justamente por isso, para Almodóvar, o acerto de contas com os traumas de um passado marcado pelo vazio deixado pela partida abrupta e violenta de entes queridos é tão significativo quanto as resoluções da trama no tempo presente em todos os seus aspectos e núcleos, envolvendo família, maternidade e relações amorosas. O percurso histórico, no filme, é entendido como um constante movimento em que passado e presente se conectam de modo inseparável, e somente quando em harmonia, ainda que sem apagar suas dores, são capazes de acenar para um futuro pleno.

    Almodóvar entende que o tempo é dinâmico e possibilita caminhos diferentes. Talvez venha daí a visão de sua protagonista, fotógrafa profissional que, mesmo ciente do valor do registro de objetos inanimados, revela em certa passagem a preferência por capturar seres vivos, dotados de potência e movimento. Por isso é que, em Mães Paralelas, tão importante quanto exumar vítimas de opressão passada é registrar, no presente, a primeira capa de revista de uma mulher trans.

    Desse modo, tomando o passado como escola para o presente e o presente como ponte para o futuro, se algumas crianças de outrora tiveram que crescer sem seus pais, o diretor cuidará para que no seu filme esse ciclo não se repita. Se os percursos de suas personagens foram marcados por abandono e incertezas de afeto, o fim trará comunhão e amparo coletivo – como, não por acaso, numa boa novela –, fazendo do todo um exercício em que resgate histórico e movimento atual se completam num contínuo esforço de redenção.

    Publicidade

    SEM COMENTÁRIOS

    Deixe um comentário