Crítica | Maria do Caritó

Após cinco anos em apresentações, a atriz Lília Cabral transporta às telonas a peça de Newton Moreno, sobre uma mulher sonhadora, marcada por uma vida de total desconhecimento do amor e constante desilusão, numa comédia leve e escapista e, claro, sem deixar de lado a crítica social por trás de toda uma cultura. Com estréia marcada para o próximo dia 31, Maria do Caritó, com direção de João Paulo Jabour (novela Salve Jorge), chega garantindo muita poesia, emoção e gargalhadas.

Caritó é um regionalismo utilizado para referir-se a um móvel semelhante a um nicho ou prateleira, onde são colocados pertences e,lá, esquecidos. Prometida ao São Djalminha, um santo que ninguém conhece, por seu pai, desde seu nascimento, Maria sempre levou uma vida em busca do amor, sobretudo o amor verdadeiro. Para isso, se apega com Santo Antônio, a quem dedica inúmeras simpatias e recebe sempre a mesma resposta. Tudo muda quando um novo circo chega à cidadezinha, trazendo humor, fantasia e despertando na nossa protagonista sentimentos nunca antes vividos, ainda mais quando conhece a figura masculina que sempre almejou: Anatoli.

É impossível não imaginar a carga emocional contida numa pessoa com a vida mencionada acima. Junte isso ao humor de uma Literatura de Cordel e teremos todo o presente interpretativo que Lília Cabral (também coprodutora) nos deu: todas as frustrações da vida adulta unidas às perspectivas de uma criança. Durante boa parte do filme, este estereótipo é mantido, mudando conforme novas descobertas são introduzidas na vida da Virgem do Caritó. Aqui, encontramos elementos básicos de obras do gênero, como cultura local marcante, presença maciça da religião, mostrando como a mesma influenciou o comportamento do povo, da política e da força policial, assim como o jogo de interesses destrinchados numa subtrama um tanto previsível.


Porém, o desenvolvimento de Maria, como personagem, se dá com a chegada de um circo, tranzendo grandes surpresas. Ela acaba se apaixonando pelo mestre do picadeiro, Anatoli (Gustavo Vaz), um pseudo Russo que usa de todo um charme para atrair a atenção do público, sobretudo o feminino. Ao se conhecerem, uma série de eventos ocorrem e, à Maria, restaram duas opções: se entregar ao destino outrora traçado por seu pai (que sempre se aproveita da ingenuidade dos moradores relativo à sua filha) ou acabar com sua fama de Santa e fugir com seu amor e o circo.

Toda a questão moral é trabalhada de forma sutil. Na verdade, tudo tem esse perfil até seu clímax, quando o filme para a mostrar os efeitos de uma cultura machista implantada há séculos, mas que vem sendo mantida, nutrida pelo conformismo e a falta de informações e oportunidades. Outra temática que ganha mais tom ao seu final é a sexista e como esta está implantada num povo, amarrada por ideais religiosos.

Maria do Caritó vem num momento de reflexão social bastante necessário, embora tenha uma narrativa mais leve do que o recente Bacurau (Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles). Talvez, seja a hora de rever ideias e colocá-las num “caritó” pra sempre.

NOTA

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