Crítica | Matrix Resurrections

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Ao perder o vínculo de criação após ser jogada ao mundo, a obra de arte está sujeita às infinitas interpretações possíveis ao seu impacto no ambiente social. As irmãs Wachowski não sabiam quais influências seriam acarretadas a Matrix. Com o passar dos anos, ficaram claros para as irmãs os extremos alcançados pelo filme – de um lado, conservadores conspiracionistas; do outro, defensores da analogia trans – nessa constante ressignificação da trilogia como aparato para tamanho sucesso e reconhecimento dos ditos feitos revolucionários.

Warner Bros./ Divulgação

Pois, então, nada mais justo do que Matrix Resurrections usar desse retorno para discutir a essência da franquia numa constante cutucada a quem achava entender a história de Neo. Esse novo capítulo propõe conversar diretamente com o espectador, a fim de compreender o que se passou na cabeça dos que viram Matrix evoluir e tomaram para si – seja de um jeito bom ou não – esse universo criado em 1999. A metalinguagem não é apenas uma chave para desbloquear essa possibilidade, mas uma transposição sincera do que se passa na cabeça de Lana (aqui sem sua irmã Lily) sobre sua criação.

Sem se ater a uma tentativa de mascarar essa realidade, Lana não tem vergonha de trazer o contexto de Matrix de forma a evidenciar todas as suas ansiedades quanto ao que se tornou o longa. Não parte de uma introdução encabeçada pela vontade de reviver algo deixado no passado em forma de nostalgia, mas sim de aproveitar essa situação para repousar sobre questões surgidas após mais de vinte anos. É bonito ver como tudo sai do escopo de Matrix e adentra na patologia do blockbuster como um estudo abrangente sobre as táticas mercadológicas do cinema e seu sentimento de morte e renascimento. Perfeito o timing de trazer essas questões de maneira tão direta, justamente durante a calorosa discussão sobre a proporção de salas ocupadas por Homem Aranha: Sem Volta para Casa. É Hollywood engolindo Hollywood.

Sendo assim, Matrix Resurrections não é só uma continuação, mas uma oportunidade. Uma oportunidade de sentar na cadeira e repensar os significados dados aos filmes e como eles acabam nos impactando diretamente. Não espere ter a consciência afagada nesta jornada reflexiva pela ficção inserida na realidade. Sair dessa zona de conforto soa como algo transgressor e ofensivo nessa enorme conversa sobre nossa relação com o entretenimento, mas aí está a magia: a chance de se libertar de um pensamento pré-concebido e abrir a mente para novas perspectivas.

Nesta saga pela desconstrução, Lana redescobre o motivo de fazer filmes, seu amor por contar histórias tão verdadeiras quanto emocionantes. Matrix Resurrections demonstra essa paixão pelo cinema por meio de sua encenação viva e pulsante na tela, chegando a ser bastante positiva em sua percepção desse novo universo. O esverdeado característico é tomado por cores mais vivas. Até a sequência final, passada quase inteiramente à noite, é contemplada pelo nascer do sol.

No centro de tudo estão Neo e Trinity. Ambos deslocados de sua realidade – voltar à Matrix, em todos os casos, pode ser difícil -, mas movidos por uma relação que ultrapassa qualquer imposição demandada por forças maiores e que se concretiza no encontro tão esperado. Ainda mais pelo arco de Carrie-Anne Moss, que finalmente recebe o reconhecimento por sua personagem e assume o papel de importância tanto quanto Keanu Reeves. Matrix agora é explicitamente uma história de amor.

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Matrix Resurrections aproveita de sua função enquanto produto mercadológico para trazer de volta aquilo que guiava seus personagens. Num cenário de constantes exposições causadas pela acirrada disputa nas salas de cinema ou de relevância enquanto provação de material artístico, Matrix convida o espectador a rejogar o jogo não como um aprisionamento, mas uma chance de se apaixonar novamente pelo cinema. Os problemas existem e as questões continuam surgindo. Só o que resta é focar no amor e disso tirar uma boa história.

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Revisão Crítica

NOTA
Gabriel Lunahttp://estacaonerd.com
Jornalista que se aventura no mundo da crítica de cinema. Gosto de café e filme em preto e branco.

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