seg, 27 junho 2022

Crítica | Meu Pai (The Father)

Publicidade

Provavelmente você já conviveu com alguém de idade avançada que não tenha mais a lucidez normal. Desde pequenos esquecimentos a completa falta de noção crítica da realidade. A mente humana é algo misterioso, mas a idade avançada cria ainda mais obstáculos para qualquer pessoa.

Em “Meu Pai” a ideia é justamente mostrar como a mente de alguém com Alzheimer é complexa, confusa e solitária; dentro de um enredo tocante e extremamente envolvente. E para mim, foi um retrato fiel do que vivi com meu avô, em seus últimos anos de vida, acometido pela doença, e que entre lembranças e esquecimentos, partiu sem sequer lembrar meu nome.

No filme, Anthony (Anthony Hopkins), em um de seus melhores papéis, vive sua vida “comum” de um idoso, que ama música clássica e é apaixonado pelo seu apartamento. Mas, claramente devido a sua idade avançada, sua filha Anne (Olivia Colman), precisa conseguir alguém para cuidar dele, antes de se mudar para Paris. A ideia simplista do roteiro se desfaz nos primeiros minutos, criando uma rotina nada cronológica e deixando os espectadores confusos sobre o que realmente aconteceu. Nesse ponto, claro, a edição do filme se faz essencial, e além de perfeita ela é minimamente angustiante!

Publicidade

É justamente após este ponto que percebemos que o filme não é realmente narrado pela linha comum de uma edição, e sim, pela linha de raciocínio e da memória de Anthony.

O longa que é baseado numa peça do próprio diretor Florian Zeller, cria várias realidades paralelas que nos deixam extremamente confusos sob qual a real percepção dos acontecimentos devemos seguir, e qual parte deles é realmente real. Ou se todos são reais. Ou nenhum! É esse jogo mental que nos envolve e faz mostrar um Anthony Hopkins tão dedicado e envolvido num papel tão delicado, que sua indicação ao Oscar foi no mínimo essencial.

Do outro lado, Olivia Colman (The Crown) faz com que cada minuto em cena nos faça enxergar que ela é além de uma filha dedicada ao pai, uma pessoa que sofre (e muito) pela condição do mesmo. E nestas cenas é que paramos pra pensar em nossos familiares, dos quais um dia irão precisar de nossos cuidados e em como nós deveremos ser humanos e acima de tudo, pacientes com eles.

A fotografia do filme é outro detalhe a parte que nos envolve em cada aspecto em cena, desde focos detalhistas em quadros ou utensílios de cozinha, até nas análises mais amplas de cada local e personagem.

Talvez seja o melhor filme sobre uma enfermidade tão cruel, mas tão comum entre as pessoas, contado do ponto de vista do doente, pra nos fazer entender o quão difícil (e as vezes impossível) é para a pessoa se manter sã, justamente por não saber ou não se lembrar mais do que é ou foi real. Não por menos, ele foi indicado a 6 Oscars.

Meu Pai é um filme melancólico, duro e sofrível que nos mostra o quanto teremos de ter empatia, compreensão e amor por aqueles que envelhecem hoje, e no mínimo, torcer para que quando chegar a nossa vez, tenhamos pessoas assim por perto.

Publicidade

Newsletter

Destaque

Paddington | Curta para comemorar Jubileu da rainha é lançado no Youtube; Assista!

Paddington e a Elizabeth II se uniram em um curta-metragem....

Mestres do Universo: Salvando Eternia | Conheça detalhes sobre os heróis da série; Confira!

A Netflix lançou a série animada Mestres do Universo: Salvando Eternia . A...
Uillian Magelahttps://estacaonerd.com
Co-Fundador do Estação Nerd. Palestrante, empreendedor e sith! No momento, criando meu sabre de luz para cortar a lua ao meio. A, SEMPRE escolha a pílula azul. Não faça como eu!

8 COMENTÁRIOS

  1. A ambiguidade, a indecisão, a falta de precisão (de tempo, de espaço, de humor etc.) marcam, do início ao fim, o filme “The father”. O espectador tem tanta informação quanto tem a personagem de Anthony Hopkins, razão por que não podemos aquiescer a uma leitura que enxerga nessa trama apenas a decadência de uma memória que se esvai com a senilidade da personagem principal. A ambivalência do texto, das cenas, das atuações leva, necessariamente, a pensar esse filme a partir de ao menos duas óticas: a referida acima, pela sua crítica; e outra possibilidade: a de que, de fato, a filha quer mesmo se livrar do pai (como ele afirma em certa altura da trama), pondo-o numa casa de repouso, para ficar com o apartamento. Nesse último caso, ela estaria contando com o apoio da irmã (estaria Lucy, realmente, morta?), dos enfermeiros e do marido. Seriam as confusões do pai problemas mentais ou resultado de armações muito bem articuladas, por pessoas que teriam interesse – sempre o capital – em que o velho fosse interditado? A marca do quadro estava lá. Era dia quando a filha disse que era noite (o pai acabara de ver um menino brincando com uma sacola na rua, antes ou depois de ir para a escola…). Os olhares trocados pela filha e pelo marido, antes de se deitarem, são, no mínimo, provocativos (culpa? remorço? medo? por quê?). Enfim, a excelente composição dessa obra vale mais por essa ambiguidade que pela ideia (sedutora, poética, mas muito óbvia) de que um pai envelhece e perde a noção das coisas e de si. O próprio título nos leva a essa dimensão polivalente de leitura: “O pai” significa para si mesmo, mas também para o outro: a filha (ou as filhas).

  2. Fiquei sem chão ao vê-lo pedir pra voltar pra casa, e querer sua mãe, como uma criança… Perceber o embaralhamento das idéias, perceber a mudança de cenário que existe dentro da mente e a saudade da filha morta que nem a doença foi capaz de apagar! Merece todos os Oscars! Uma lição de vida!

  3. Filme realista, primoroso nos detalhes, nos trás a situação de muitos idosos que passam por essa doença sem ter quem lhes entendam…

  4. Vivi esta situação com minha mãe, não sabia nada, aprendendo a cada dia, a cada nova situação. Foi um grande aprendizado.

Deixe um comentário