Crítica | Não Olhe para Cima

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Estima-se que a Terra resista somente por mais 1 bilhão de anos. As especulações sobre enormes asteroides, guerras nucleares ou outras catástrofes como fatores causadores da morte do planeta ainda são remotas entre os cientistas, que não determinam uma (ou umas) como a principal. Embora seja assustador, encenar o fim dos tempos parece uma inspiração para quem acha o evento anormalmente atraente; seja na tristeza ou na aceitação, passar por este acontecimento merece ser registrado. E, entre a Melancolia (2011) de fato melancólica gravada por Lars von Trier, e a quase celebração do término da vida de É o Fim (2013), Não Olhe para Cima (2021), de Adam McKay, está no meio termo. Analisando os extremos, o longa-metragem manuseia essa temática de um modo que o final seja tão controverso quanto temido. 

Por volta de 66 milhões de anos atrás, os dinossauros foram extintos. Em 2021, outra raça estaria precocemente ameaçada de extinção. Antes mesmo da Era do covid-19, Não Olhe para Cima mostrava que a humanidade estaria em perigo; no caso da obra, um cometa descoberto por dois cientistas, a jovem Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence) e o professor Dr. Randall (Leonardo DiCaprio), seria o motivo de alerta. Em um período curtíssimo, este corpo astronômico alcançaria a Terra e daria adeus a qualquer sopro de existência humana. Isto se não houvesse uma intervenção grandiosa. Logo, Kate e Dr. Randall, auxiliados por Dr. Teddy (Rob Morgan), buscam por uma força que seja capaz de impedir a tal colisão, chegando em espaços praticamente inatingíveis, como a Casa Branca. Entretanto, o que se vê da presidente dos Estados Unidos, Janie Orlean (Meryl Streep), é condizente com a reação de muitos outros ouvintes da história: tudo não passaria de uma piada.

Netflix/Divulgação

O incidente que desencadeia toda a narrativa é fornecido no início de seu proferimento, servindo assim para a assimilação de um tema que poderia voltar-se ao cunho presunçoso e de compreensão equívoca. Expositivo no quesito de fazer-se entender, o filme deixa claro, a partir de suas primeiras cenas, que o desafio ali não seria desvendar os estragos que o cometa poderia exercer, e sim convencer a quem importa de que a proteção para algo inevitável seria a única chance de sobrevivência do povo. Por mais que o assunto provoque um desconforto por conta do medo de um desconhecido pouco abordado, sem exatidão, porém irremediável, o drama não é o gênero predominante aqui. Ainda que tenha um fundo dramático e personagens que levem a sério o futuro desastre, o tom escolhido aproxima-se de uma sátira. Remetendo a esquetes, a projeção de momentos com grande potencial emocional torna-se revoltante não por sua sisudez, dado que os mesmos são invertidos em ridicularizações de comportamentos surreais, tal qual a falsa preocupação da presidente para com o destino do planeta e seus habitantes.

Pode-se dizer, então, que o risível é espremido da escassez de noção coletiva de uma época individualista ao passo que é hipócrita. O fato de Kate ser considerada louca por reforçar descontroladamente a afirmação de que o plano terrestre estaria com dias contados, na teoria, seria uma causa de indignação. Entretanto, na obra, é hilariante acompanhar seu tratamento aos olhos dos demais, essencialmente dos internautas aficionados em histórias polêmicas. Além da óbvia crítica a politicagem e seus pupilos que governam para si e para seu bel-prazer, existe igualmente o ferrenho julgamento das tradições midiáticas de ultimamente. Transformado em espetáculo, a saga dos astrônomos rumo a conscientização do trajeto do cometa passa não só pela humilhação alheia, mas também pelo crivo da internet. Ditadores do que é verdade ou não, seus usuários corroboram para o mantimento da ironia que permeia todo o filme com memes, tweets, fake news, etc., envolvendo a história de Kate e Dr. Randall, e a avacalhação que só o digital consegue espalhar. 

Composto por um equipe de fato astronômica, o longa-metragem apresenta uma linearidade em seus protagonistas que ou mudam timidamente ou permanecem com seus posicionamentos ao longo das 2 horas e 22 minutos. Evidenciados por um roteiro que vê como primordial discursos performáticos e falas absurdas que traduzem suas mentalidades, os personagens podem até sofrer com as ações das ocorrências, porém Dr. Randall é o que mais reflete tais situações em sua própria pessoa. Na verdade, grande parte dos intérpretes reproduzem suas melhores versões de caricaturas, sejam elas concebidas para gerar ódio ou para que o público afinque-se empaticamente. Meryl Streep é a política inescrupulosa; Jonah Hill é seu filho alienado e imaturo; Cate Blanchett é a mulher bonita e fútil; e até a cantora Ariana Grande representa o avoamento juvenil. Todavia, como já era de se esperar, tais papéis são cumpridos fidedignamente ao que se propõem.

Levando em conta Vice (2018) e A Grande Aposta (2015), é perceptível que o cineasta Adam McKay sabe conduzir um enredo que circunde a comicidade oriunda das mais desastrosas circunstâncias. No ramo da análise do funcionamento justo de alguns ramos da sociedade, como os poderes públicos, o diretor também localiza-se em uma zona de conforto. Finalmente adotando e assumindo o estilo sarcástico, McKay utiliza como qualidades a extração de um riso baseado no disparate; o constrangimento e o nervoso sentidos pela audiência por causa dos movimentos dos personagens, fazem surgir um inesperado contentamento, e, de quebra, uma reflexão. Dando margem a tais sentimentos, a continuidade do interesse no longa-metragem não anula o aprofundamento insuficiente de todas as questões que aborda, esgueirando-se na sensação que o espectador terá diante de figuras competentes, mas caricatas. Todavia, a montagem, que adota um método de foco e desfoco da lente, plano e contraplano; enfoque em elementos aparentemente incongruentes, como um quadro ou mãos humanas, porém análogas ao momento vigente; dinamicidade entre uma câmera e outra, por vezes na mão e por vezes estática; pop-ups de mensagens, vídeos ou imagens na internet, dentre outros; concluem a modernidade requerida para um argumento pautado no hoje.
Não Olhe para Cima começa como um filme de perambulação de Kate, Dr. Randall e sua defesa cientificamente provada contra a dizimação da espécie humana, porém, por mais que novidades quanto aos papéis sociais dos personagens não acontecem frequentemente, o longa-metragem desenrola-se como uma crítica ao fascínio do coletivo difundido pela mídia em relação a espetacularização de toda e qualquer coisa. Incluindo a resistência de suas vidas. Grandemente dedicado ao elenco sem igual, o trabalho de McKay diverte pela revelação de um egoísmo mascarado da população, assim como sua desonestidade, e daí abrindo um leque de assuntos para se pensar: o principal deles, talvez, está na ponderação da relevância do que seguir. Precisamos acreditar em tudo que nos transmitem? É possível que ter opinião não seja invalidar o outro? E nossas vidas, será elas tão indestrutíveis a ponto de gargalhamos ao termos uma fagulha de intimidação contra? “Não olhe para cima” não está apenas no título; olhar para cima, como diz a obra, é enxergar o que está além do nosso domínio, mas não da nossa visão.

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Revisão Crítica

NOTA
Laisa Limahttp://estacaonerd.com
Uma mistura fictícia de Grace Kelly, Catherine Deneuve e Brigitte Bardot versão subúrbio carioca do século 21.

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