Continuar uma comédia romântica depois que o casal finalmente fica junto dá trabalho. O primeiro beijo já aconteceu, os obstáculos intransponíveis foram superados e ninguém aguenta três temporadas correndo atrás da mesma pessoa para declarar amor na chuva. Em algum momento alguém precisa dividir o armário, lavar a louça e descobrir que a pessoa dos sonhos tem hábitos domésticos insuportáveis. A terceira temporada de Ninguém Quer encontra graça justamente aí.
Depois de duas temporadas tentando conciliar diferenças, Joanne (Kristen Bell) e Noah (Adam Brody) passam a morar juntos. Ela é a podcaster impulsiva, à vontade para contar detalhes da própria intimidade, que agora frequenta aulas de conversão. Ele é o rabino organizado e paciente, convencido de que existe uma maneira correta de arrumar os talheres na máquina de lavar. A convivência rende conflitos que qualquer casal reconheceria.
A química entre Bell e Brody segue como o maior trunfo da série, e há algo reconfortante em acompanhar um casal que não precisa questionar o relacionamento a cada episódio. O desafio é que, sem a tensão das primeiras temporadas, Ninguém Quer precisa de outras razões para continuar interessante. Nem sempre encontra, mas ao menos abandona a ideia de que todo romance vive à beira do desastre.

É aí que Morgan (Justine Lupe) e Sasha (Timothy Simons) ganham peso. Com Sasha separado de Esther (Jackie Tohn), a proximidade entre a irmã de Joanne e o irmão de Noah ganha novas possibilidades, e confesso que meus sentimentos são contraditórios. Parte de mim gostaria que continuassem apenas amigos: há algo raro em ver um homem e uma mulher construindo intimidade sem que cada conversa vire preparação para um beijo. Por outro lado, basta colocar Lupe e Simons na mesma cena para eu começar a reconsiderar meus princípios. É irritante quando uma série conhece tão bem as próprias armas.
A viagem dos dois a Nova York está entre os melhores momentos da temporada. Longe de Joanne e Noah, a narrativa respira, e Lupe e Simons mostram uma química diferente da dupla principal, menos idealizada e mais desajeitada. Morgan encontra em Sasha alguém que não quer corrigi-la o tempo inteiro, e ele descobre uma liberdade que raramente teve no casamento. O romance é uma possibilidade interessante, mas a amizade que construíram talvez seja ainda mais.

Lupe segue roubando cenas, e Morgan, egoísta e inconveniente, ganha humanidade suficiente para não virar caricatura. A carreira dela também ganha espaço, o que cria uma tensão nova com Joanne, que precisa lidar com as próprias mudanças enquanto a irmã conquista independência. Nem sempre as duas são generosas uma com a outra, e a série poderia explorar melhor essa rivalidade.
Esther (Jackie Tohn) também ganha espaço para descobrir quem é fora do casamento. A separação de Sasha permite que ela invista na carreira imobiliária, experimente novas relações e comece a construir uma rotina que não gira exclusivamente em torno da família. É interessante acompanhar essa independência, especialmente numa personagem que passou boa parte da série tentando manter tudo sob controle. Pena que, quando sua trajetória começa a ganhar força, o roteiro ainda insiste em trazê-la de volta aos conflitos amorosos dos outros. Esther tem uma vida própria agora, e seria bom que a série confiasse um pouco mais nela.
As aulas de conversão de Joanne rendem situações engraçadas e alguns momentos de reflexão, mas funcionam mais como cenário para conflitos pessoais do que como exploração consistente da fé. Ainda assim, há algo bonito em ver Joanne perceber que amar Noah é conhecer uma vida que existia muito antes dela. O desafio é participar desse universo sem desaparecer dentro dele.
No fim, a temporada descobre que o romance depois do beijo também é feito de coisa pequena: dividir o armário, aceitar que o outro vai mudar. Parece óbvio, mas a maioria das comédias românticas termina antes de chegar nessa parte. Ninguém Quer ainda tropeça em conflitos repetidos e em personagens que mereciam mais atenção. O encanto do primeiro encontro é insubstituível, mas ter como pessoa favorita alguém que insiste num jeito certo de arrumar a louça também tem o seu romance.
Ninguém Quer está disponível na Netflix.


