Crítica | Ninguém Sai Vivo

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Os pioneiros sempre influenciam seus pupilos. Não obstante do universo cinematográfico, no gênero do terror, as referências dos antepassados norteiam obras que reciclam o que já foi observado, cada uma à sua maneira. A fantasia de O Gabinete do Dr. Caligari (Robert Wiene, 1920), a estranheza de Frankenstein (James Whale, 1931), a tensão de Halloween – A Noite do Terror (John Carpenter, 1978), a paranormalidade de Poltergeist (Tobe Hooper, 1982); por aí vai. É quase impossível fugir destas e de outras convenções depois de tanto tempo seguindo-as, mas cabe ao filme dar-lhes um novo sentido ou transformá-las em mais uma caricatura. Se juntando a longas-metragens deste mesmo estilo, como 1922 (Zak Hilditch, 2017) e Campo do Medo (Vincenzo Natali, 2019), produzidos pela Netflix, a novidade do serviço de streaming é Ninguém Sai Vivo (2021), de Santiago Menghini, a mais recente tentativa de amedrontar por meios além dos clichês.

NO ONE GETS OUT ALIVE. Cristina Rodlo as Ambar, Victoria Alcock as Mary, in NO ONE GETS OUT ALIVE. Cr. Courtesy of Netflix

A adaptação do livro No One Gets Out Alive, de Adam Nevill, conta a história de Ambar (Cristina Rodlo), uma imigrante mexicana nos Estados Unidos que necessita de um local para morar, escolhendo desesperadamente uma pensão caindo aos pedaços. Lá, a moça conhecerá seus piores medos, fazendo com que sua escolha seja um tanto falha. Sem ver escapatória, sua realidade será lidar com os mórbidos moradores, sejam eles vivos ou de um outro plano, e com os consequentes acontecimentos de explicação rasa. Com 1hora e 27 minutos de duração, o filme percorre lentamente o pesadelo de Ambar que, como se não bastasse conviver com o iminente medo de ser deportada, enfrenta um inimigo insípido, incolor e insípido: o sobrenatural. 

Por não ter como lutar contra, o desconhecido traz a convicção de que nenhum problema o supera. No caso da protagonista da obra, tanto sua vida dentro quanto fora da casa em que vive estão desmoronando. De ambos os lados, a chance de ser pega é o fato mais aterrorizante que pode acontecer, seja pela polícia ou por espíritos malignos que, sem grandes razões, a rodeiam constantemente. A metade factual do drama de Ambar sobre seus mártires de morar na América, entretanto, é verossímil a ponto de trazer compreensão para atitudes que pouco têm embasamento no cinema de terror, como, por exemplo, acionar a polícia em casos extremos. Já no fragmento que segue sua jornada lado a lado com os habitantes do além, tudo condiz com um mais do mesmo. Almas na Terra por si só realizam o trabalho de serem temidas – justamente pelo medo do desconhecido, citado acima -, e, por isto, não são elementos de duro manuseio em um longa-metragem do estilo. Porém, as conveniências enublam a experiência, que continua batida.  

NO ONE GETS OUT ALIVE. Cristina Rodlo as Ambar, in NO ONE GETS OUT ALIVE. Cr. Teddy Cavendish/Netflix © 2021

A imagem azulada, tendência em produções mais atuais, como Noturno (Zu Quirke, 2020), vinda da conhecida produtora Blumhouse, constrói uma sobriedade atmosférica; tudo se encaixa com uma melancolia que reflete a tristeza de forma instantânea. O que acontece, porém, quando este elemento se une a casebres antigos; ambientes de pouca iluminação com paredes mofadas e escadas de madeira que se assemelham a espirais infinitos; vizinhos tenebrosos; fantasmas que aparecem por trás da vítimas; sonoplastia com sensação de zumbido, etc., é uma das tantas outras investidas em transformar estereótipos em bons resultados. Por mais que se tente os reconfigurar com a base da história, que relaciona Ambar com questões de xenofobia e com doses de psicopatia de terceiros, nada foge do habitual. Na verdade, os jumpscares desnecessários e as aparições fantasmagóricas sem conexão com o contexto das cenas, em nada auxiliam o filme a angariar características próprias, dado o descarte narrativo de algumas destas situações.  

Sem uma significativa evolução, o primeiro e segundo ato de Ninguém Sai Vivo respondem a uma vontade de gerar inquietação por intermédio do ambiente e da causalidade ali presente; quem não receia estar em um quarto com um espírito invocado para ser pavoroso? Contudo, a inexistência de um desenvolvimento da circunstância em que os personagens se veem, prezando somente pelo jogo de sombra e claridade e pela insegurança do que aparecerá na tela, não torna o momento mais apreensivo. O que ocorre, todavia, é o pensamento de artificialidade da trama, que pode não conectar seu visual com a emoção do público. A continuidade impregnada nessas duas partes iniciais não foca na compreensão de seu espaço para, aí sim, originar o choque. Indo na contramão dessa tática, o que se sabe sobre a habitação é o básico, e nada de muito relevante decorre no percurso de Ambar e sua infelicidade por morar nos Estados Unidos.

NO ONE GETS OUT ALIVE. David Figlioli as Becker, Cristina Rodlo as Ambar, in NO ONE GETS OUT ALIVE. Cr. Courtesy of Netflix

Apesar do filme expor escassamente um enredo com potencial para conter uma alta carga dramática, visto a importância da pauta dos estrangeiros que desejam ser cidadãos norte-americanos e seu menosprezo por parte da sociedade, isto se reverte em segundo plano. As atuações, principalmente de Cristina Rodlo (Ambar) e Marc Menchaca, Red, o contratante da casa, servem para a proposta mas não para um desenrolar mais especificado. O enquadramento de seus personagens, então, limita a expressividade dessas e das demais figuras no longa-metragem, que apenas no fim de sua exibição é capaz de responder certas perguntas e mostrar serviço como um produção de terror de fato assustadora e com conteúdos que realmente influenciam de maneira incisiva em sua história. 

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Ninguém Sai Vivo até ostenta um pano de fundo muito parecido com Psicose (Alfred Hitchcock, 1960) – a casa em que se passa -, mas em nada tem a ver com uma revolução no gênero do terror. O filme se vê preso em agentes que cabem em filmes similares, como o mencionado uso da paleta de cores frias e dos jumpscares. Com um evidente desespero ao colocá-los aleatoriamente, o recurso é um dos que provam a unidade de constituintes já muito manejados, colocando à prova a capacidade comunicativa da produção, que desaponta em deixar de lado um bom tema como a imigração ilegal. Tal qual sua classificação no catálogo da Netflix, a obra seguiu por um raciocínio de ser, à ferro e fogo, um exemplar referencial do estilo juntando muitos de seus padrões. Se atingiu o objetivo ou não, basta analisar se seus sustos foram derivados do medo ou do costume. 

Revisão Crítica

NOTA
Laisa Limahttp://estacaonerd.com
Uma mistura fictícia de Grace Kelly, Catherine Deneuve e Brigitte Bardot versão subúrbio carioca do século 21.

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