Nós Acreditamos em Vocês (On Vous Croit) acompanha Alice, uma mãe solteira cansada e desesperada por justiça, em uma audiência para decidir a guarda de seus filhos contra o ex-marido, um homem frio acusado de crimes horríveis. Com uma grande pressão sob seus ombros, ela enfrenta o juiz com o sentimento de não poder cometer erro algum, pois a segurança das crianças dependia dela e de suas palavras.
É comum que filmes com temática jurídica perdurem na detalhista exposição das situações que servem como principal conflito da narrativa, podendo despertar a devida atenção do público como também, lamentavelmente, gerar cansaço ou até desinteresse. A forma como os fatos de determinada história estão sendo apresentados, assim como a metragem do longa, é o que define o sucesso ou o fracasso. No longa-metragem Nós Acreditamos em Vocês (On vous croit), produção belga de 2025 que chega aos cinemas brasileiros neste mês de julho, o drama de uma mãe que batalha na justiça pela proteção dos filhos contra o próprio pai abusador chama a atenção pela fluidez e intensidade dos casos apresentados dentro de uma duração curta, porém mais que suficiente.

O cinema europeu tende a capturar com uma louvável precisão sentimentos conturbados, que vão das fases do luto a inquietação da mente diante de injustiças. Em Nós Acreditamos em Vocês, a protagonista Alice é a verdadeira representação da angústia, do medo e do desejo por justiça. Representada de maneira magistral por Myriem Akheddiou, a personagem reflete a triste realidade de mulheres que enfrentam o medo de bater de frente com seus agressores. Existe uma sensibilidade ímpar não roteiro de Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys ao mostrar a vítima que foge de qualquer estereótipo que possa considerá-la uma coitada, pondo Alice, na verdade, em um papel desafiador que suporta escutar atrocidades como também respondê-las a altura com palavras sinceras.
A direção, que também esteve nas boas mãos de Devillers e Dufeys, se divide entre o sóbrio, o tenso e o explosivo, atribuindo camadas bem distribuídas ao filme que o deixa longe de ser enfadonho, mesmo com sequências longas de diálogos que são bem filmadas e valorizam os exímios trabalhos de atuação de Akheddiou, de Laurent Capelluto – intérprete de Mr. Goossens, o pai acusado de violência sexual -, e dos jovens Adèle Pinckaers e Ulysse Goffin, que interpretaram Lila e Etienne respectivamente, filhos do ex-casal. O trabalho de maior caráter minucioso do longa está na interpretação dos diálogos escritos com maestria, assim como na preparação do ambiente de tribunal, onde a predominância de tons claros parecem intimidar a quem assiste, tal como a ausência de trilha sonora e os enquadramentos mais fechados, artifícios narrativos que casamento brilhantemente com a intensidade quieta do filme, que é capaz de conversar com serenidade sobre uma barbárie e como é difícil a luta de uma vítima que tem palavras e sentimentos como armas de defesa e acusação.
Forte, sensível e, ao mesmo tempo, intenso, Nós Acreditamos em Vocês chega a apresentar um desfecho otimista, mas sem tirar a seriedade da situação e reforçando a necessidade das palavras das vítimas de qualquer tipo de violência serem ouvidas e compreendidas.


