Imagine ouvir o mundo sempre no volume máximo, essa é a vida do jovem afinador de piano, Niki. Além de ouvido perfeito, ele possui uma rara condição médica que amplia a potência de todos os sons ao seu redor, de uma forma insuportável, obrigando-o a estar sempre com abafador e isolador de ruídos para conseguir sobreviver em meio a uma barulhenta sociedade. Na tentativa de ajudar seu mentor a abrir um cofre, o rapaz descobre, acidentalmente, uma nova utilidade para seus afiados ouvidos: decifrar senhas através do barulho da fechadura. Quando esses mesmo mentor adoece, deixando um rastro de contas médicas acumuladas, Niki decide colocar em prática seu recém encontrado talento para ajudar com as despesas.
A empreitada começa cheia de boas intenções, mas como dessas o inferno está cheio, as coisas não tardam a descambar para um caminho perigoso, quando Niki começa a associar-se com pessoas cada vez mais perigosas. Em meio a visitas hospitalares e uma vida de crimes, ele acaba conhecendo uma pianista com quem desenvolve uma bonita conexão através da música. O relacionamento dos dois escala rápido e na tentativa de impressioná-la, ele acaba iniciando uma bola de neve de consequências desastrosas.

O filme tem um senso de humor bem afiado, principalmente na primeira metade, enquanto explora a dualidade da relação entre o aprendiz e seu chefe, vivido por Dustin Hoffman, a quem cabe incorporar o estereótipo do velho engraçado sem papas na língua. A dinâmica da dupla é estabelecida em poucos minutos e, desde logo, é perceptível a importância daquela figura em sua vida. Até por isso, é tão crível que sua vida tenha tomado caminhos tão sinuosos, quando essa figura paterna adoece.
E é claro que um filme tão centrado na capacidade de escuta do protagonista não poderia deixar de trabalhar o som como parte central de sua composição. Na tentativa de emular para o público a sensação de estar na pele – ou melhor dizendo, nos ouvidos – do personagem principal, o diretor manipula o volume dos barulhos ambientes, utilizando-se do poder do cinema para aumentar e diminuir a intensidade daquilo que é ouvido pelo público, como se estivéssemos dentro da cabeça de Niki. O tipo de magia que nenhuma outra arte consegue transmitir, pois vai muito além de descrever textualmente uma sensação, pelo contrário, te faz sentir como se aquilo se passasse diretamente dentro de quem assiste.

A montagem rápida e dinâmica, perfeitamente sincronizada com os barulhos diegéticos e com a trilha sonora do filme, lembram bastante o cinema de Edgar Wright. Essa fluidez não é mero exibicionismo gratuito – e tudo bem se fosse também – mas cumpre um claro propósito narrativo de nos colocar no constante estado ansiogênico vivido pelo protagonista. Sua mente acelerada reflete-se nos cortes e seus pensamentos agitados são traduzidos em tela, por meio da quantidade de informações visuais encaixadas em poucos minutos. Quando está com seu objeto de afeto, a namorada Ruthie, sua cabeça desacelera e a edição acompanha seu estado de espírito, com cenas mais longas e sem tantos cortes. Algo que pode passar batido pelo consciente do espectador menos atento, mas ainda sim será percebido pelo seu subconsciente, alcançando a sensação desejada.
Lá pelo terço final, a trama começa a ganhar contornos megalomaníacos, que ao invés de escalonarem a tensão, geram o efeito contrário e acabam por diluí-la. Quanto mais se afasta da proposta inicial para se tornar um thriller cheio de reviravoltas e gangsters perigosos, menor é seu impacto. Por sorte consegue recuperar suas bases nos minutos de desfecho, terminando em uma nota bastante otimista e esperançosa.


