Se há algo de irresistível em O Clube do Crime das Quintas-Feiras é perceber como a morte pode, paradoxalmente, ser terreno fértil para histórias cheias de vida. Baseado no best-seller de Richard Osman, o filme de Chris Columbus nos leva a Cooper’s Chase, uma luxuosa comunidade de aposentados que parece saída de uma propaganda de chá inglês: jardins verdejantes, quartos palacianos e uma aura dourada que, aos poucos, revela suas rachaduras.
É ali que quatro idosos decidem desafiar o tédio com uma dose de adrenalina. Elizabeth (Helen Mirren, magnética como sempre) é ex-agente do MI5; Ron (Pierce Brosnan) é o ex-sindicalista com mais bravata que fôlego; Ibrahim (Ben Kingsley) surge como o psiquiatra meticuloso e sereno; e Joyce (Celia Imrie), enfermeira recém-chegada, equilibra humor doce e uma sagacidade nada ingênua. Às quintas-feiras, eles se reúnem para investigar crimes reais, até que assassinatos começam a acontecer dentro do próprio condomínio e a ficção dá lugar a uma investigação que pode comprometer a todos.

A força do filme está, sem dúvida, no elenco. Mirren lidera o grupo com uma elegância quase perigosa, mostrando como a velhice pode ser um disfarce perfeito para alguém que nunca perdeu a sagacidade. Kingsley trabalha com ironia silenciosa, Brosnan injeta charme bagunçado, e Imrie, com seu olhar curioso, abre para o público uma entrada calorosa nesse mundo.
Um ponto da adaptação, no entanto, merece discussão: Bogdan. Nos livros, o mecânico polonês é um dos personagens preferidos do público justamente por fugir dos clichês. Misterioso, leal e humano em suas contradições, ele conquista aos poucos. No filme, porém, a versão de Henry Lloyd-Hughes perde camadas e cai em uma representação que flerta perigosamente com o estereótipo do “imigrante sombrio”. É compreensível que nem tudo caiba em duas horas de tela, mas aqui a sensação é de oportunidade desperdiçada: ao invés de explorar o carisma e a ambiguidade de Bogdan, a adaptação o deixa restrito a um papel periférico.
Esse contraste poderia ser uma das maiores forças da obra. Enquanto os aposentados investigam crimes entre vinhos caros e salas confortáveis, Bogdan encarna outra Inglaterra: a da imigração, da desconfiança e das margens sociais. Nos livros, essa dimensão ganha afeto e complexidade; no filme, aparece achatada, quase como detalhe. Assim, perde-se uma camada essencial da narrativa, aquela que mostra que o mistério não está apenas no “quem matou?”, mas também nas vidas discretas que se cruzam em silêncio.
Chris Columbus, conhecido por sucessos como Esqueceram de Mim e Harry Potter, aposta aqui em uma direção segura e afetuosa. A fotografia dourada e a ambientação de conto de fadas podem soar exageradas, como se lares de idosos fossem resorts de luxo inatingíveis, mas há algo estratégico nisso: quanto mais perfeita a superfície, maior o impacto das fissuras.
O que mais chama atenção, contudo, é como o núcleo principal foge da caricatura. Elizabeth e seus companheiros não são tratados como velhinhos “fofos”, mas como mentes afiadas, capazes de manipular policiais e criminosos. A terceira idade aqui não é limite, mas disfarce. Pena que o mesmo cuidado não tenha sido dado a Bogdan.
Nem tudo funciona. O ritmo oscila, a estética lembra mais um especial de domingo da BBC do que um thriller de cinema, e o excesso de tramas imobiliárias e corrupção pode dispersar a tensão principal. Ainda assim, O Clube do Crime das Quintas-Feiras conquista pelo carisma dos personagens, pela leveza com que trata temas pesados — assassinatos, envelhecimento, perda — e pela forma como reafirma que a vida e o mistério não acabam quando se apaga a velinha de 70 anos.
No fim, a sensação é de que esse primeiro filme funciona quase como um piloto de TV: um convite para voltar semana após semana a Cooper’s Chase, torcendo para que Elizabeth, Joyce, Ron e Ibrahim não apenas desvendem crimes, mas sigam provando que envelhecer não significa ser deixado de lado. O crime pode ser sombrio, mas a amizade e o humor ácido iluminam o caminho.
O filme está disponível na Netflix.