sex, 26 junho 2026

Crítica | O Filho de Mil Homens

Publicidade

Não é preciso ser um grande iniciado na literatura de Walter Hugo Mãe para utilizarmos alguns adjetivos como “poético”, “profundo”, “humano” e “emocionante” quando nos referimos às suas narrativas. E, como toda obra que pode ser adjetivada dessa forma, suas adaptações tentam não apenas imprimir, como também provocar o mesmo no espectador. O filho de mil homens (2025), de Daniel Rezende, baseado no livro homônimo, é claramente devoto à escrita e aos personagens desenhados por Mãe.

Crisóstomo (Rodrigo Santoro) é um pescador solitário que sonha em ter um filho. Sua vida muda quando encontra Camilo (Miguel Martines), um menino órfão que decide acolher. Em uma tentativa de fugir de sua própria dor, Isaura (Rebeca Jamir) cruza o caminho dos dois e, em seguida, Antonino (Johnny Massaro), um jovem incompreendido, também se conecta com eles. Nessa miríade de personagens, ligados pela trama, mas distintos em origem e experiência, Rezende se empenha em transformar cada um no cosmos que, conforme poeticamente define Santoro no ato final, é o elo de tudo e de todos.

Essa sensibilidade na construção das personagens, que funcionam como pequenos representantes de faces da sociedade, é apresentada através, claro, de como elas lidam com o mundo, mas também dentro de uma construção visual que passa tanto pela escolha da razão de aspecto — à medida que esses personagens surgem e, por consequência, se ligam a Crisóstomo e Camilo, a janela se abre mais — quanto pela direção de arte, que transforma cada ambiente em algo particular, tanto na ambientação quanto nos tons utilizados. Em outras palavras, trata-se de um longa-metragem extremamente apurado em termos visuais, como sempre é dentro da filmografia de Rezende. Desde Bingo até os filmes da Turma da Mônica, é perceptível o cuidado do diretor na maneira como constrói o mundo em que a história se passa, seja em roteiros originais ou em adaptações para o cinema.

Publicidade

Há muito que a crítica de cinema ainda se debate com questões relacionadas a adaptações, desde aqueles que defendem ferrenhamente a fidelidade à obra até aqueles que acreditam que, por serem mídias diferentes, exigem abordagens diferentes. A questão aqui posta não busca dar conta dessa discussão datada e, pessoalmente, resolvida; o ponto de reflexão é como a atmosfera da obra de Mãe se conecta à de Rezende. Ora, estamos falando justamente das adjetivações. Poder-se-ia aplicar “poético”, “profundo”, “humano” e “emocionante” ao filme protagonizado por Santoro? A resposta, por sua vez, é mais complexa que um simples “sim” ou “não”.

Isto posto, toda adjetivação precisa de sua argumentação. Não farei aqui, entretanto, uma lista com pontos internos ao filme que justificam cada uma dessas palavras, mas sim uma linha explicativa do porquê de uma resposta não assertiva. O filho de mil homens, incontestavelmente superior, guarda reverberações com outro filme contemporâneo de lançamento: Sonhos de Trem (ou Train Dreams). Se, no projeto estadunidense, não se encontrava nada além de emulações gratuitas de um cinema “malickiano”, Rezende traça, visual e narrativamente, uma história de fato humana. Existe carinho pelos personagens, por como suas tramas se conectam, por como o cosmos ilumina e explode na noite (a cena final é belíssima). Ou seja, é um cinema que guarda atenção ao modo como se representa e como se narra.

Ora, então você, leitor, me pergunta: o que é que ambos os filmes trazem de semelhante? Respondo: o impulso em ser emocionante. Toda a história, por si só, é uma sequência de pequenas joias que formam um colar cuja solidificação se dá através de um abraço. Mas existe, seja nos momentos em que os personagens falsamente encaram a câmera, seja quando as lentes se colocam tão próximas, a necessidade de conduzir ao choro. Não é que o sentimento não exista, mas ele não matura; ele precisa se converter em um choro copioso; emocionado, claro, mas não tão sentimental.

Publicidade

Essa característica faz do filme inferior? Não. Ele é, indubitavelmente, “poético”, “profundo”, “humano” e “emocionante”. Algumas vezes de forma forçosa, outras de forma natural. No final, fica a impressão de um mundo mais interligado, como talvez seja, afinal, entre a literatura e o cinema.

Publicidade

Publicidade

Destaque

A Queda 2: No Limite | Saiba tudo sobre a ELETRIZANTE sequência; Confira!

Disponivel em Cinema. Assista ao teaser trailer: https://www.youtube.com/watch?v=whpOcuDr0Rc De luto pela morte de sua irmã Shiloh, Jax Hunter cria um laço com Luce, a amiga corajosa de Shiloh....

GTA 6 | Relatório aponta lançamento do jogo em mídia física

Tema principal: GTA. Segundo a publicação, a Rockstar Games e a Take-Two Interactive teriam optado por não disponibilizar a edição em disco no lançamento inicial para evitar vazamentos...

Digger | Warner Bros. Pictures revela conteúdos inéditos do novo filme de Tom Cruise

Disponivel em Cinema. Com estreia prevista para 1º de outubro de 2026, o filme da Warner Bros. Digger traz o astro Tom Cruise de volta às telonas em...

A ‘Supergirl’ é brasileira: Divulgação do novo filme da Warner Bros. Pictures movimenta o país

Disponivel em Max, Cinema. A espera acabou: Supergirl, segundo filme do novo universo cinematográfico da DC Studios, chega hoje (25/06) aos cinemas de todo o Brasil, após as...

Netflix: lançamentos de julho de 2026 | veja séries, filmes e datas

Veja os lançamentos da Netflix em julho de 2026, com séries, filmes e datas de estreia, incluindo Vapor Humano, Entrevista com o Vampiro 2, Enola Holmes 3 e 72 Horas em Miami.
Não é preciso ser um grande iniciado na literatura de Walter Hugo Mãe para utilizarmos alguns adjetivos como “poético”, “profundo”, “humano” e “emocionante” quando nos referimos às suas narrativas. E, como toda obra que pode ser adjetivada dessa forma, suas adaptações tentam não apenas...Crítica | O Filho de Mil Homens