Acaba sendo um exercício até ingênuo tomar um filme pelo título, mas, para esta breve crítica, se faz necessário refletir um pouco sobre os dois títulos escolhidos para o filme: a tradução, O Jogo do Predador, e o original, Apex. Antes de tudo, claro, uma breve sinopse: protagonizada por Charlize Theron e Taron Egerton, a narrativa acompanha uma alpinista que, após perder seu marido, resolve se aventurar mais uma vez em uma floresta na Austrália, descobrindo que seu maior desafio de sobrevivência não é a natureza, mas o próprio ser humano.
Dirigido por Baltasar Kormákur, o resumo parece com o de qualquer outro filme de aventura que estreou nos últimos anos. O problema, na verdade, não reside na originalidade de uma história — já que abordagens distintas destacam tramas que podem se assemelhar —, mas na forma que estas se apresentam para o público. Eis que retornamos ao ponto inicial do texto: os títulos.
O Jogo do Predador soa atrativo em nível superficial, e muito disso pela justaposição das palavras “jogo” e “predador”. Um jogo implica uma competição com resultados mensuráveis e, neste caso, é uma competição pela vida. Afinal de contas, quem comanda esse jogo é o tal predador que nomeia o filme. Contudo, Kormákur não tem a habilidade de construir imageticamente uma competição com suas regras e conflitos. Mais que isso: se todo jogo tem uma virada de tabuleiro, neste caso, a tal “virada” é tão evidente desde o início que a brincadeira se torna chata e previsível antes mesmo de se desenvolver. Como um burocrata, as sequências de ação são entrecortadas constantemente, diluindo a tensão.
Até mesmo quando se ousa um pouco na utilização do digital, é tão evidente a falta de criatividade que a plasticidade do filme novamente denuncia o “fast-food” Netflix, que existe pela entrega do conteúdo, despejando-o em seu catálogo como trunfo financeiro. Durante a perseguição inicial sofrida pela personagem de Theron, a câmera acredita que explorar o espaço se dá em imagens aéreas, sem movimentos de drone que captem a sinuosidade dos rios, como se aquelas etapas fizessem parte de uma cobertura olímpica.
Ou seja: o jogo é o desejo de uma estética, e não um recurso narrativo.
O predador, por sua vez, ainda que tenha um trabalho interessante de Egerton em fisicalidade, tem toda e qualquer ameaça perdida nas terras da floresta. Em um desejo de construir algo que lembre o Hannibal Lecter de Anthony Hopkins, o que fica é a preguiça de transformar essa ameaça em algo mais palpável.
E então chegamos ao título original, Apex, que, em uma tradução simples, se refere a um vértice, ao cume de uma montanha. Funcionando como um trocadilho e como uma metáfora para a superação do luto da protagonista, o filme conhece bem a palavra em seu significado, mas pouco em como trabalhá-la em termos narrativos. Se a protagonista sobrevive — e isso é evidente desde o início —, o sucesso de sua escalada não representa qualquer tensionamento. O projeto desconhece, facilmente, o seu cume ou vértice.
E não me refiro aqui a uma noção de roteiro padrão, de que todo filme precisa de um clímax — afinal, posso citar uma lista de grandes projetos que não possuem isso —, mas dentro de um filme que foi escrito dentro desse modelo, é jocoso notar que todos os grandes momentos acontecem sem qualquer trabalho de construção de, e me repito, tensão. Ora, a descoberta é filmada em um plano e contraplano tão pouco criativo que nada impressiona; a captura de Theron é outro momento sem qualquer trabalho mais evidente de construção de clima, optando novamente pela pouca profundidade da imagem; e a sequência final, o grande “jogo” entre os personagens, não é nada além de uma conjunção de planos-detalhe para que tudo fique perfeitamente alinhado na montagem burocrática do filme.
Ou seja, ao final, não há jogo, não há predação e muito menos apex. É tudo tão linear, plástico, sem relevos ou atritos, que, se essa crítica não encontrasse sua âncora nos títulos, poderia se referir a qualquer um dos outros enlatados despejados no grande depósito estéril que se tornou a Netflix.


