dom, 4 dezembro 2022

Crítica | O Páramo

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O medo do desconhecido é um dos estados naturais do ser humano. Temor de uma situação nova, um local diferente, um passo ainda não dado, etc.; tudo que soa como incerteza, gera insegurança. E, se o que é previsto já é assustador, o invisível é capaz de aflorar ainda mais o pressentimento de vulnerabilidade contra a sensação de deparar-se com algo inexplorado. Um Lugar Silencioso (2018) permite que os sentidos sejam aguçados para que ser pego desprevenido não seja uma opção. O Babadook (2014) segue por uma linha similar ao recente longa-metragem da Netflix, O Páramo (2021), de David Casademunt: personificações maléficas e sem rosto denominadas por vocativos representam uma mística que paira nos pensamentos e nas decisões de quem os rodeia. No caso de O Páramo, o monstro não vive só em casa, como em O Babadook, mas também se expande para uma Espanha do século XIX assolada pela guerra. 

Em uma propriedade rural isolada, Diego (Asier Flores) mora com sua mãe, Lucía (Inma Cuesta). Seu pai, Salvador (Roberto Álamo), os deixou para devolver o corpo de um homem misterioso que apareceu repentinamente em sua porta aos familiares. Para isso, teve que cruzar o limite entre a fazenda onde residia e a verdadeira realidade espanhola, envolta por embates armados e uma miséria perpétua. Após meses de espera por Salvador, Diego e Lucía começam a lidar com uma figura mencionada (e temida) pelo mesmo, mas nunca vista: a “Besta”. Alimentada e engrandecida pelo pavor, a criatura estremece a vivência de ambos, antes pacífica e protegida de todo e qualquer transtorno, e os obriga a lidarem com algo que se mantém uma incógnita. Tomada pelo senso iminente de perigo, Lucía perde-se em uma paranóia compreensível, e Diego precisa crescer mais rápido do que o habitual.

Embora apresente um contexto que atravessa o campo imaginário, as metáforas e alegorias de O Páramo sobrepõem o que seria apenas uma construção que gira em torno de mais um espírito obsessor. Na verdade, em Eras em que a falta de proximidade parece o método de sobrevivência mais são, o filme cabe na fôrma dos que retratam, por mais abstrato que sejam, a narrativa da pandemia. Algo letal, que não se vê nem se toca, e que obriga a fazer do distanciamento uma solução, não é mera coincidência com o vírus da COVID-19. Focando nas necessidades humanas, a obra toca no ferimento mental da conjuntura pandêmica; ainda que seja o ideal, o isolamento carrega mártires que pesam conforme ele se alonga. Para Lucía, a fixação com a ideia de submeter-se a um risco que fere a si e a seu filho foi suficiente para que a personagem elevasse sua carga emocional ao colapso. Aliás, é difícil encontrar alguém que não perdeu as estribeiras, pelo menos um pouco, durante um período em que o inimigo vinha de todos os lados, e a barreira contra ele transpunha nossas vontades. Contudo, a criação bem-vinda da história não se resume à sua intenção.

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Por mais que não seja, toda a trama se assemelha a uma possível lenda espanhola. A simplicidade do enredo, que se estabelece logo nas primeiras cenas e ganha somente reverbério nas seguintes, têm nisso sua virtude e sua falha. Como qualidade, o direcionamento retilíneo do longa-metragem, que trabalha suas nuances impostas basicamente em seus dois personagens centrais, não confunde quem deseja compreender o efeito psicológico que aquele único fator agravante, uma solitária luta em que só uma peça se desgasta, atua em cima de psiques gradativamente mais frágeis. Como defeito, o thriller de terror – assim categorizado – não conserva sua intensidade por toda a obra, repetindo as sequências de um modo formulaico e um tanto previsível. Para abastecer uma história sustentada por uma premissa apta para um filme desse gênero, mas carente de profundidade narrativa, são necessários elementos para além do comum. No entanto, na obra, a elaboração detalhada do imperceptível, tal qual as feições da Besta, supre um bocado do requerimento do foco de ser, de fato, um filme amedrontador, porém, a contínuas provações de Diego e Lucía, tais quais as diversas vezes em que a mulher vê erroneamente a criatura do lado de fora da casa, tornam-se reiterações de um mesmo todo.

Independentemente dos erros de O Páramo, um dos maiores acertos foi a escalação de Asier Flores e Inma Cuesta. O Diego de Asier, faz a demonstração do que é crescer não pelo curso natural da vida, e sim por um imperativo. Tratado como um “covarde” pelo pai por não querer pegar em armas, por exemplo, o menino, posteriormente ao conhecimento da Besta e da condição de sua mãe, aprende a agir como um adulto, incluindo a acumulação de pesares e deveres que um indivíduo autossuficiente possui. Já Lucía, interpretada por Inma, traz ao espectador uma analogia com a maternidade e com a depressão; por conta do sentimento de impotência, Lucía reflete a mudança mais evidente da trama, colocando-se no lugar de responsável pela subsistência dela e de seu filho e decaindo no momento em que percebe que isso não está mais em seu poder. Então, tanto Asier quanto Inma, foram pilares da empatia do público enquanto pessoas em posições atingíveis para qualquer um.

 David Casademunt, em sua primeira parceria com a plataforma Netflix, realiza um trabalho que, em detrimento das mensagens que deseja transmitir, é válido como um passatempo reflexivo até certo ponto. Contando com ambientações imersivas, que não só se respaldam nas construções rurais típicas do século XIX, mas igualmente nas tonalidades terrenas (evidenciando o marrom claro da palha e da madeira) das próprias imagens, a estética de O Páramo auxilia na formação de todo um espaço. A utilização de diversos elementos cinematográficos, como a câmera na mão uma hora e a câmera lenta na outra, confunde na hora de descrever e fragmentar a direção de Casademunt, que, apesar disso, tem em seu controle a concepção do mito que é a Besta. Optando pelo dedutivo e não pela exposição, o diretor floreia o que seria o “monstro” e oferece a cada espectador um grau de temor diferente, tentando, pelo menos, não perder sua curiosidade. Entretanto, mesmo que temáticas interessantes sejam abordadas, a revelação final reforça que estas poderiam culminar em um resultado mais medonho e até satisfatório.

O Páramo não é feito de jump scares, mas usa de artifícios batidos, como a trilha sonora, para declamar uma “lenda”, no tom do terror, ocorrida há pouco tempo atrás, em 2020, e com resquícios até nos dias de hoje. Para fins simbólicos, o filme de Casademunt faz da ideação um transporte, e consegue unir a pandemia a uma “entidade” indeterminada que espalha o caos e atinge os indefesos na Espanha de antigamente. Contudo, o fôlego da história só iria prosseguir se este exibisse propostas mais inovadoras, visto que muitos filmes estão usufruindo dessa mesma nascente. Logo, o longa-metragem é um representante dos efeitos essencialmente do isolamento em seus acometidos, e da capacidade da mente de projetar o sofrimento da atualidade em uma esfera ilusória, porém correlativa. E, ainda assim, nada chega aos pés do quão assustador é um vírus sem face e sem distinção.

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