Crítica | O Poço

Não existiria um momento mais adequado e oportuno para o lançamento de O Poço, via streaming pela Netflix, afinal, depois de arrastar prêmios importantes no Festival de Toronto, ano passado, a mais nova crítica social ganha ainda mais peso com toda a questão filosófica e sociocultural em que o mundo se encontra.

Dirigido pelo estreante Galder Gaztelu-Urrutia, O Poço trata de temas cotidianos e com uma longevidade quase que indiscutivelmente sem fim, usando alegorias surrealistas, expressionistas e muita metáfora, como já costumeiro em produções do gênero (lembra de Parasite?). O local do título trata-se de uma prisão disposta verticalmente (não se sabe se seu ápice é nivelado com o plano terrestre ou se nele fica seu fundo), com centenas de “andares” e, em cada um, uma única cela em forma quadrada. Do topo ao fundo, enumeram-se de forma crescente estes andares e, interligando-os, temos uma plataforma futurista, ao centro, que se desloca do nível 0 (o mais acima), todos os dias, repleta da maior fartura em comidas já vista na história do cinema espanhol. Em cada nível, ficam duas pessoas e, a cada mês, estas são mudadas para níveis aleatórios, ou seja, segundo Brian Shelby (Vanilla Sky, 2001), viverão o “mel e o fel”. Mas será que, depois de viver o fel, saberão apreciar o mel?

A premissa acima já é, por si só, bastante interessante, uma vez que desperta a curiosidade a cada minuto. Juntando estas ideias ao gore, temos um espetáculo gráfico de realidades cada vez mais presentes e vistas no cotidiano. Nada é poupado aqui. Apesar de ser um filme com muitos personagens e interpretações, Urrutia priorizou o ponto de vista de Goreng (Ivan Massagué), que se inscreve voluntariamente para entrar no “inferno”, visando algo que é descrito mais tarde, e lá conhece seu companheiro de cela, Trimagasi (Zorion Eguileor), um homem já idoso e mais por dentro do sistema. Apesar de relativamente “redondo”, com atos bem equilibrados em seus 94 minutos, o roteiro é impecável, trazendo os medos e inseguranças de seus personagens e os transmitindo a quem assiste.


Urrutia procurou um roteiro em que os personagens dialogassem com o expectador e, de fato, a missão é bem-sucedida, já que a desigualdade social sempre existirá enquanto Homo sapiens sapiens estiver de pé. A inserção do surrealismo só nos deixa a par de que o realismo conhecido já morreu faz tempo e que as barbáries, reais ou ficcionais, já são medos presentes em nossa realidade hedionda, claramente visível quando flerta-se com a ideia de partilhar a comida, desde o nível zero.

Assim como Donnie Darko (2001), A Chegada (2016) e, recentemente, Entre Realidades (2020), O Poço é um vislumbre de que a realidade é difícil de ser compreendida, aceita e mudada, de que não existe apenas uma interpretação para um problema milenar com inúmeras causas e exponenciais consequências e que a mudança apenas individual não trará mudanças reais e significativas. Basta olhar ao redor. Programa mais que recomendado em tempos de isolamento social (do bem).

P.S.: comprem álcool em gel com consciência.

NOTA

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