seg, 15 junho 2026

Crítica | Os Sete Relógios de Agatha Christie

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Um dos livros não tão famoso da célebre escritora de mistérios, Agatha Christie, ganhou adaptação em formato de minissérie com três capítulos que estreou na Netflix. A obra se passa durante a década de 1920, em uma casa de campo na Inglaterra, onde um grupo de pessoas ricas reúne-se para passar um final de semana.

Uma dessas pessoas é Gerry Wade, um jovem promissor com o péssimo hábito de sempre dormir até mais tarde. Seus amigos decidem, então, pregar-lhe uma peça, escondendo despertadores em seu quarto para que o rapaz acorde assustado e pontualmente. No entanto, ao raiar do dia seguinte, percebem a brincadeira não funcionou e Wade não se juntou ao grupo para o café da manhã. Ao procurarem por ele, encontram-no morto em seu quarto. A princípio a polícia suspeita de suicídio, mas sua namorada Bundle está determinada a investigar mais a fundo a situação.

A minissérie começa acelerada, jogando o espectador dentro de uma festa sem oferecer muito contexto a respeito de seus personagens, recurso que pode até ser bem empregado em outros tipos de obra, mas acaba tirando o charme e propósito de um whodunit – estilo literário/cinematográfico no qual a história gira em torno de descobrir quem é o assassino – em que seria interessante conhecer melhor os suspeitos. As únicas que apresentam traços de personalidade são a protagonista, Bundle, e sua mãe, já os demais são tão mal explorados que fica difícil lembrar seus nomes, o que acaba por tornar pouco engajante a investigação.

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Apesar de retratar a classe alta inglesa em 1920, a série não tem qualquer cuidado com a reconstrução de época, figurinos ou maquiagem. Tudo é tão empobrecido que beira o amadorismo. A posição financeira dos personagens é mais textual do que de fato refletida nas imagens em tela, que não passam a sensação de opulência e elegância. Para piorar, a fotografia apagada e mal iluminada deixa a obra com um visual ainda mais apático, sem conseguir sequer aproveitar os cenários naturalmente bonitos dos campos ingleses.

A edição apressada que não deixa a obra respirar nem quando a situação parece pedir por isso, faz com que o ritmo pareça muito acelerado, ainda que a trama não caminhe na mesma frequência, criando uma sensação de que a história está correndo, sem que esteja de fato andando. Como se a montagem frenética fosse o bastante para criar uma urgência que não existe.

Ao longo dos episódios, ainda surgem subtramas políticas supostamente mirabolantes, envolvendo novos personagens esquecíveis que só servem para deixar o desenrolar da série mais truncado do que já estava, já que os realizadores não conseguem lidar com o encaixe desses enredos. Outras mortes e ameaças vão sendo jogadas em tela, até que o momento da revelação chega de maneira totalmente anticlimática.        

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Só não é uma tortura acompanhar pessoas tão desinteressantes quanto a atmosfera na qual estão inseridas, porque a jovem atriz que dá vida a protagonista tem um carisma natural e conduz a narrativa com astúcia, trazendo consigo um pouco de sagacidade enquanto está em tela – o que felizmente é a maior parte do tempo.   

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Raíssa Sanches
Raíssa Sancheshttp://estacaonerd.com
Formada em direito e apaixonada por cinema
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