qua, 18 maio 2022

Crítica | Pequena Grande Vida

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Premissas de escala grandiosa são facas de dois gumes. Se por um lado atraem a atenção e despertam a curiosidade do público de maneira imediata, por outro geram uma carga de expectativas que nem sempre serão cumpridas. E não que o realizador de um filme deva se sentir vinculado a atender o que se entende serem as demandas do público, por óbvio. Expectativas em torno de caminhos aos quais determinadas premissas levam podem ser subvertidas, e em muitos casos é salutar que o sejam. O problema se dá justamente quando é sensível no resultado final que a obra, ainda que dotada de uma visão própria a respeito da história que queria contar, deixou-se infectar por essa “obrigação” de esgotamento da premissa. E ironicamente essa busca por atender a toda uma gama de comentários e desdobramentos possíveis oriundos de seu conceito é o que afasta Pequena Grande Vida, filme mais recente do renomado diretor Alexander Payne, de alcançar todo seu potencial.

Já em sua primeira cena, o filme expõe a ideia matriz em torno da qual se orientará toda a narrativa. São revelados com objetividade quase documental em suas passagens de tempo os meandros de uma pesquisa científica voltada a viabilizar a diminuição celular de pessoas, animais e outras formas de vida a um grau inferior a 1% da massa corpórea naturalmente existente. Tal expediente teria por objetivo viabilizar, em linhas gerais, um alívio nos impactos ambientais causados pelo homem, já que, diminuída a massa dos seres e das coisas, diminuiria também o volume objetivo de consumo. Após essa breve e objetiva introdução e procedida uma elipse de dez anos, somos apresentados a Paul Safranek (Matt Damon) e sua esposa Audrey (Kristen Wiig), que, diante das dificuldades financeiras que vêm enfrentando, se veem tentados a aceitar os incentivos propostos e optar pela diminuição como forma de levar uma vida mais farta materialmente.

É nessa transição que sai do conceito idealizado em abstrato – a diminuição corpórea como forma de preservar o meio-ambiente –, atravessa os determinantes sociais – fatores de classe, poder aquisitivo e modo de vida – e chega à esfera pessoal – as questões que no íntimo movem a decisão do protagonista e de sua esposa – que reside a alma de Pequena Grande Vida. Payne, por mais que flerte com a exploração de temáticas diversas implicadas na peculiar premissa (e dessa tendência trataremos mais à frente), elege a subjetividade do seu protagonista como o cerne de todo o drama. Não se trata, assim, de um filme sobre a hipótese científica proposta como elemento propulsor da narrativa, mas sim de um filme sobre o caminho percorrido por seu herói em meio às possibilidades abertas por aquela hipótese. Nos momentos em que se dedica a uma aproximação afetiva com Paul Safranek em sua busca por deixar de se ver como instrumento de apoio aos outros e passar a se identificar como indivíduo dotado de vontades, anseios e vocações próprias, valendo-se da oportunidade da diminuição corpórea para majorar-se como pessoa, Pequena Grande Vida apresenta o que Payne tem feito de melhor ao longo de sua carreira: explorar a psique de personagens masculinos que não sabem lidar com as frustrações de não preencherem o arquétipo social de homem. E aqui com uma bem adequada carga de carinho e compreensão que destoa do olhar mais mordaz apresentado no já clássico Eleição (1999), por exemplo.

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Embora se fie por essa opção de abordar centralmente a jornada de descoberta pessoal do protagonista, é difícil não notar que em diversas passagens Payne parece não resistir à tentação de se debruçar sobre algumas questões abertas pela premissa da história. E não haveria nada de errado nisso se o filme se permitisse realmente adentrar esses espaços. Do modo como é feito, porém, tudo soa como pequenas piscadelas desprovidas de profundidade ou mesmo de algo específico a dizer. Assim, há passagens em que o filme passeia por comentários sociais, políticos e de outras ordens quase como uma forma de preencher caixinhas e se livrar duma suposta obrigação de tocar nesses pontos.

Ainda assim, no todo, as virtudes dos momentos em que Payne volta a atenção ao desenvolvimento do seu protagonista superam esses desvios, e, mesmo que de maneira trôpega, o resultado é um filme que sabe a história que quer contar e o faz de modo autêntico e inventivo. Uma ficção científica com a cara e o gosto do realismo prosaico e do humor de incômodo que constituem a marca própria do seu diretor.

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Felipe Limahttp://estacaonerd.com
Formado em Direito. Palpiteiro em Cinema.

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