Crítica | Por um Corredor Escuro

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Talvez por se debruçar sobre um instinto humano tão primário como o medo, o horror, enquanto gênero, remete a uma tradição de longuíssima data, sendo seguro afirmar que, senão todas – não teria tamanha pretensão –, grande parte das formas de expressão artística, narrativas ou não, exploraram-no enquanto veículo criativo. No cinema, possivelmente a arte mais apta a fazer jus à gama de possibilidades apresentada pelo manejo do medo como substrato dramático, não poderia ser diferente. Estamos falando, afinal, daquele que, ao lado do drama romanesco convencional, foi e segue sendo o gênero mais experimentado no audiovisual.

Ligada a essa carga histórica, inevitavelmente, há uma herança de códigos, convenções e variações deles presente, de maneira consciente ou intuitiva, no imaginário do público. Essa herança, por certo, dá àqueles que hoje lidam com o cinema de terror um ponto de partida seguro, não sendo necessária muita inventividade ou um gênio artístico elevado para realizar-se um exemplar “funcional” do gênero. Ao mesmo tempo, porém, traz consigo uma tapeçaria de referências que pode se apresentar como armadilha criativa. Há sempre o risco de o autor conformar-se com a “facilidade” de operar no gênero ou mesmo contemplar demais suas variadas possibilidades e acabar não articulando quase nada que torne sua própria obra singular. E esse, infelizmente, parece ser o caso de Por um Corredor Escuro.

Adaptado do livro homônimo escrito em 1974 por Lois Duncan, o filme, dirigido por Rodrigo Cortés (Poder Paranormal, 2012; Enterrado Vivo, 2010), conta a história de Kit (AnnaSophia Robb), uma adolescente de postura rebelde que, traumatizada pela perda prematura do pai em um acidente, é enviada pela mãe e pelo padrasto à escola de Blackwood, especializada em educar e trazer à tona os talentos de jovens inadaptadas à escolaridade comum. Lá chegando, ela descobre ser uma das cinco únicas alunas da instituição comandada pela misteriosa Madame Duret (Uma Thurman), cujos métodos logo começam a impactar a psique das estudantes, sugerindo segredos que vão além da primeira aparência do local.

É curioso como o material-fonte do filme parece ser ao mesmo tempo sua bênção e maldição. Bênção porque, não fosse a curiosidade despertada pelo argumento em si, um coming of age que trata de modo relativamente inventivo de temas como reencarnação e abertura de pontes com o “mundo dos mortos”, pouco sobraria de interesse à obra. Maldição porque Cortés se mostra satisfeito em apenas ilustrar cinematograficamente os termos da história narrada. Fica a impressão de que o diretor não faz questão de imprimir uma visão própria sobre o material a ele oferecido. Tudo acaba soando um pouco como resultado de uma conversão dessas operadas por programas de um formato de arquivo para outro, mas aqui de literatura para cinema. É sintomático, por exemplo, que num filme cuja ação se passa inteiramente em uma locação – o castelo da escola de Blackwood – não haja nenhum senso de peso nessa paisagem supostamente opressiva, nenhuma atmosfera, nem mesmo algum grau de familiaridade geográfica – o que seria o mínimo a se pedir – desenvolvido nos 96 minutos do longa.

Do mesmo modo, a maneira como o filme vacila entre as possibilidades de conceber o terror de sua premissa é representativa da falta de uma unidade pensada pelo diretor – que é ou deveria ser, afinal, o autor do filme. Por um Corredor Escuro, até por sua patente dependência das ideias do livro-fonte do seu roteiro adaptado, sabe o que quer ser, mas parece não fazer ideia de como quer sê-lo. Assim, o drama das personagens em sua condição de outsiders e vítimas de uma aparente conspiração na instituição que deveria acolhê-las é atravessado por expressões de terror que se sucedem na tela de modo quase aleatório, sem coerência enquanto construção geral. Vai-se da sugestão pobremente construída de um horror de local assombrado à explicitação gráfica apenas para depois, sem justificativa aparente, voltar-se ao sugestivo. Passagens de sombras pelos cantos menos iluminados do quadro, movimentação da câmera em chicote para gerar sustos fáceis, entre outros elementos familiares ao público do gênero, se amontoam na projeção de um modo que soa apenas incongruente e sem qualquer aparência de integração a um estilo próprio de encenação. É como se Cortés passasse o filme inteiro tateando as possibilidades do gênero, mas nunca fechasse a mão sobre nenhuma delas, fazendo todas em que toca soarem como muletas para levar a história ao fim.

Se há, para além da curiosidade do argumento em que se centra o roteiro, algo capaz de despertar algum engajamento do espectador para com Por um Corredor Escuro, é a empatia com a protagonista, defendida por AnnaSophia Robb com doses bem equilibradas de vulnerabilidade e assertividade. A presença dela em cena – e ao menos o filme acerta em explorá-la ao máximo – é dotada de uma proximidade emocional que conduz o público, com algum grau de interesse, até o fim da projeção. Ainda que pouco tempo de tela seja diretamente investido no drama central da protagonista – sua relação com o pai falecido –, é fácil se importar com ela, de modo que, ao menos nesse ponto, a obra não soa tão banal.

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No todo, porém, Por um Corredor Escuro é um exemplar do cinema de terror dotado de uma autoconsciência que traz um saldo negativo. Ciente do legado histórico do gênero no qual se situa, o filme opta por se inserir do modo mais fácil e imaginativamente pobre nessa tradição. O resultado é uma adaptação imemorável, satisfeita em ilustrar no audiovisual uma obra literária. E o cinema, como deveria saber o autor da obra, pode ser bem mais do que isso.

Revisão Crítica

NOTA
Felipe Limahttp://estacaonerd.com
Formado em Direito. Palpiteiro em Cinema.

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