sex, 27 janeiro 2023

Crítica | Ruído

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Essa crítica foi escrita por Luke Rigaud. Siga ele na sua rede social: Instagram

Prontificado a retratar um drama inspirado em, não apenas um, mas em diversos casos reais de desaparecimento no México, a nova produção latina da Netflix também assume o compenetrado papel de tornar um tema de extrema sensibilidade em algo que atraia a atenção de seu público, sem a apropriação da dor alheia ou o mero intuito de fazer caixa com o sensacionalismo.

De fato, Ruído conta com uma competente direção por parte da cineasta Natalia Beristáin, que, em conjunto com o roteiro bem estruturado, assinado por ela, em conjunto com Diego Enrique Osorno e Alo Valenzuela, entrega uma narrativa repleta de detalhismos quanto a construção do drama principal e na excelência dos diálogos, principalmente nos relatos dos grupos de apoio às vítimas da violência. A sensibilidade, amalgamada a autenticidade de seus realizadores, é presente a ponto de tornar “Ruído” não somente melancólico, mas também um longa chocante.

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“Ruído” é um filme que se desdobra tanto como um drama emocionante, quanto um suspense investigativo e, em alguns momentos, até mesmo um pseudodocumentário. O primeiro ato do longa pode, para alguns, começar de forma mais lenta, por estar desenvolvendo a história e atribuído a personagem Julia os mais variados sentimentos provenientes da perda, chegando também a explorar com maestria o luto e a desolação desta. Ao longo da projeção, somos guiados pela protagonista e pela jornalista Abril, interpretada por Teresa Ruíz, a uma jornada investigativa para saber do paradeiro de Gertrudes, a filha desaparecida, destacando também a ineficiência das autoridades quanto à violência sofrida, principalmente, por mulheres no país. Uma momentâneo silêncio de tristeza é rompido pelo estridente ruído de gritos de protesto, na produção de Natalia Beristáin, tendo destaque ainda maior nas cenas finais, que mostra um protesto contra o Estado, quem vem a ser conivente com desaparecimentos, assassinatos e a falta de punição contra os responsáveis por tamanha barbárie.

Talvez, o barulho emitido por Ruído fosse ainda maior caso o longa tivesse uma duração que ultrapassasse duas horas. Não que em 1 hora e 45 minutos não dê para falar bem o que era para ser dito, já que a produção o faz com maestria. Mas, ouvir mais histórias de indignação com a falta de compromisso das autoridades diante de tragédias faria com que o filme ganhasse uma repercussão ainda maior.

Não podemos deixar de destacar o esplêndido trabalho da atriz Julieta Egurrola, que transmite toda a melancolia e angústia necessária para a sua personagem. Egurrola, inclusive, é mãe da diretora Natalia Beristáin, cujo pai, o premiado ator Arturo Beritáin, também participa do longa, como ex-marido da protagonista.  

Com uma exímia direção de fotografia, que valoriza planos mais fechados e simétricos, closes em expressões e olhares melancólicos e uma paleta de cores que opta por tons mais frios, Ruído é um exemplo de como utilizar a tristeza e indignação como forma de protesto, através da sétima arte.

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