ter, 16 agosto 2022

Crítica | Seguindo Todos os Protocolos

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É comum do cinema, de tempos em tempos, se adaptar com a situação imposta por sua época. Na primeira fase de filmes sobre COVID 19 era comum mostrar o óbvio, subestimando o conhecimento do telespectador. Agora, em uma mistura entre o triste e o engraçado, Seguindo Todos os Protocolos é uma pequena crônica sobre todas as incertezas e medos que provavelmente todo mundo passou durante a pandemia.

Desde o começo da pandemia, Francisco tem seguido à risca todas as medidas de segurança para evitar a contaminação por Covid-19. No entanto, dez meses se passaram, e ele está carente de sexo e contato humano. Enquanto isso, vê os colegas ignorando os perigos e levando a vida normalmente. Francisco decide encontrar uma maneira de resgatar sua vida sexual, mas sem tirar a máscara, nem deixar de lado o álcool gel.

O personagens chave é Francisco (interpretado pelo diretor) que mantém uma constante relação neurótica e exigente em relação ao vírus. Gerando cenas inclusive cômicas com um dos seus amigos via Zoom, trazendo bastante naturalidade para sua obra. O homem solitário considera a si próprio uma resistência, depois de 10 meses de pandemia, a sociedade ignora os riscos e retorna para “a vida normal”. Ele deseja e repudia o contato humano, em meio a diversos problemas causados pela pandemia, desde estresse, tédio, até problemas psicológicos. Nosso protagonista decide então retomar essa vida sexual(seguindo todos os protocolos) exige testes, banhos e troca de roupas para os rapazes que o visitam. Com essa retomada é claro que existem os medos e dúvidas, a fácil identificação é palpável e a criação de um acolhimento com seu público é bem executada.

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O diretor Fábio Leal traz discussões contemporâneas para sua obra, desde a pequena discussão via Webcam de Francisco e seu namorado, entrando numa espécie de humor autoconsciente. Abordando temas de cunho mais progressistas como lugar de fala e o colorismo. Leal brinca com esses debates muito comuns da internet, não ridiculariza-os nem os torna chatos de assistir. O retrato mais sério em sua obra é marcado pela solidão e principalmente pelas dificuldades emocionais de seu protagonista, desde os primeiros contatos humanos após 10 meses isolado, até o extremo causado pelos noticiários em uma jornada que nunca parece ter uma luz no fim do túnel.

O cotidiano da pandemia é repleto de aleatoriedades, não só por causa do tédio instaurado, mas por uma necessidade de preencher essa lacuna desesperada. Antidepressivos, lives do Átila, sites de conteúdo adulto, vídeos de exercício, noticiários, Yoga e assim continua… As constantes mudanças de nosso protagonista é extremamente identificável, e o  filme escolhe por ficar durante aquele mundo mesmo, não explorando eventuais vizinhos ou algum contato com o exterior (com excessão da sequência final). O longa se divide em três partes: a primeira mais na comédia, a segunda no drama, e sua terceira numa espécie de fantasia. A cena final da moto exemplifica isso perfeitamente, algo totalmente lúdico que passeia as ruas vazias, fazendo-nos quase que esquecendo o contexto apresentado durante todo seu filme.

Em sua crônica moderna, o diretor Leal traz muita sensibilidade e honestidade durante boa parte do longa. O carinho pelo real é palpável, a passividade  de cenas que transitam entre o humor natural e o drama existencialista, isso inclui a nudez do filme totalmente natural, sem intenção de chocar. Talvez a falta perceptível da sociedade no longa, distancie de ser algo inesquecível, mas a mensagem passada é facilmente alcançada. Para além de pontuar os detalhes, encontra seu público numa fase de continuar na crise ou vislumbrar o fim da mesma.

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