Crítica | Shadow

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“Falso e verdadeiro. Verdadeiro e falso. Como em um jogo de xadrez. Mas, afinal, quem são os peões?”. O questionamento de um dos personagens centrais de Shadow revela muito do espírito do filme produzido em 2018 e que só agora é lançado no circuito comercial brasileiro.

Ambientado na China do “Período dos Três Reinos” – Séc. III d.C. –, o filme de Zhang Yimou gira em torno das tramas envolvidas no esforço de reconquista, pelo reino de Pei, da cidade de Jing, ocupada militarmente pelo reino dos Yang. Nesse tabuleiro, peças fundamentais são o errático rei de Pei, a priori relutante em instigar hostilidade contra os inimigos que lhe tomaram a cidade, e o alto comandante do exército, que goza de prestígio perante os generais do reino e está decidido a se valer disso para retomar Jing. Acima deles, porém, a história centra suas ações em Jing – personagem nomeado como referência à cidade –, treinado em segredo desde a infância como sombra – espécie de dublê – do alto comandante do exército de Pei e que tem de substituí-lo em virtude de sua saúde debilitada.

Divulgação/PlayArte

O que melhor define a essência de Shadow é o equilíbrio estabelecido por Yimou entre a dinâmica ágil e furtiva da trama palaciana de um lado e, de outro, a suntuosidade e o peso lúdico da ação. É justo falar em equilíbrio porque são dois polos que despertam interesse de maneira autônoma, mantendo-se hígidos cada um por sua própria lógica interna, mas que, para além disso, se complementam de modo a potencializar um o outro.

Na primeira metade, Shadow se apresenta como uma narrativa farsesca de intrigas políticas. Os personagens são postos como peças de um jogo no qual se definirão os rumos da balança de poder e a própria existência do reino de Pei, ameaçada em caso de derrota no conflito que se avizinha. Ainda que haja um esforço de estilização – procedido de maneira um tanto óbvia, é verdade – a ser mencionado, como no recurso à fotografia acinzentada de modo quase cartunesco para denotar a morbidez dos eventos e na utilização de planos atravessados por tecidos por trás dos quais os personagens tramam para conferir um ar sub-repitício/dissimulado, é sobre o texto e sua fluidez dialógica que recai a maior parte da atenção nesse primeiro momento.

É até inapropriado dizer que o filme é repleto de reviravoltas, porque isso pressuporia a existência de um terreno firme sobre o qual se operassem desestabilizações. Parece mais adequado falar, aqui, numa narrativa cuja lógica é a própria instabilidade. As posições nunca são firmadas, e o espectador passeia junto aos personagens por uma tapeçaria maleável sem jamais ter certeza, até o desfecho, de quem está puxando as cordas. Toda essa dinâmica, aliás, é atravessada por uma lógica de performance e trucagens acentuada pela própria condição do protagonista – sombra, privado de identidade própria, como referido –, que em certa passagem afirma ser seu maior medo viver “na escuridão, sem luz, sem som, na escuridão total, tocando em toda parte, esfregando cada rachadura na parede, para impedir que enlouqueça”, transmitindo um temor de desorientação que conversa com a vacilação permanente que pauta a obra.

Deng Chao wields an unlikely weapon in Shadow.

Mesmo quando o filme se desloca dos espaços internos onde se costuram os rumos da guerra e parte para a ação mais franca, essa porosidade da trama se mantém, de modo que cada gesto nos embates é carregado de possibilidades. As sequências de ação não se afiguram como meros veículos para levar a narrativa de modo previsível de um ponto “a” a um ponto “b”. Antes, na verdade, se integram de modo orgânico a essa lógica de constante construção e desconstrução que define a narrativa.

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Mais do que isso, é quando embarca na ação que a obra ganha mais robustez dramática. A adesão ao wuxia aqui passa longe de soar gratuita. Yimou materializa em sua mise em scene, por meio de dados aparentemente simples, como técnicas de combate e espécies de artefatos bélicos utilizados, as distinções de tradição e pertencimento entre as partes envolvidas no conflito marcial. Retira-se a banalidade que poderia caracterizar o embate entre as personalidades individualizadas e acrescenta-se um elemento de afirmação de soberania cultural, de esforço de não assimilação, conferindo um senso de significação mais ampla àquilo a que se assiste.

E essa significação é fundamental para tornar Shadow completo em seu escopo. Um filme voltado mais detidamente ao aspecto de dissimulação das correlações de poder envolvidas na “pequena política” do embate bélico, sim. Mas ainda um filme de guerra que, como tal, compreende o tamanho e o peso das várias facetas envolvidas na história contada.

Revisão Crítica

NOTA
Felipe Limahttp://estacaonerd.com
Formado em Direito. Palpiteiro em Cinema.

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