Em Silvio Santos Vem Aí acompanhamos os bastidores do programa de auditório que consagrou Silvio Santos (Leandro Hassum) como um dos maiores comunicadores do país e da sua campanha presidencial no ano de 1989. A trama mostra a jornalista e publicitária Marília (Manu Gavassi) trabalhando na equipe do apresentador com o intuito de investigar sua vida e prever qualquer tipo de ataque político.
Uma estranha surpresa essa nova produção inspirada na vida do maior comunicador do Brasil. Partindo de uma premissa deveras interessante, Silvio Santos Vem Aí acompanha o apresentador, dono do SBT, durante sua ousada investida na política brasileira em plena época de redemocratização. O desconhecimento em saber como dar alma para essa narrativa, além de partir para a maior escapatória do sentimentalismo expositivo e quase sem escrúpulos, acabam por comprometer o bom argumento inicial, transformando a cinebiografia, com chances de se destacar em meio às caronas recentes produções inspiradas na vida de Silvio Santos, em quase “mais uma do mesmo”.

É sentida uma certa ambição, por parte do roteirista Paulo Cursino (do emocionante e completo Mussum: O Filmis), de fazer jus ao legado do saudoso Senor Abravanel, com uma narrativa verdadeiramente atrativa emocionalmente, procurando evitar armadilhas geradas por fatores mediantes de causas e consequências, como aconteceu no desastroso “Silvio” (2024), com Rodrigo Faro interpretando o comunicador, e como gradativamente também de desencadeou na – ora atrapalhada, ora bem produzida – série O Rei da TV, do Star+. Silvio Santos Vem Aí, apesar de ostentar de uma aparente tentativa de construir o drama através de foco mais preciso na humanidade do apresentador através de depoimentos de pessoas que conviveram ao seu redor e lembranças do próprio Senor Abravenel, foi inevitável cair na mesma armadilha do sentimentalismo forçado, a ponto de criar uma dissonância entre essa representatividade humanística e o tom investigativo e publicitário dos bastidores da polêmica campanha presencial.
Fica mais do que evidente o fascínio da diretora Cris D’Amato (S.O.S. Mulheres ao Mar) em estabelecer uma conexão entre a figura de Silvio Santos e Charles Foster Kane de Orson Welles, do clássico insuperável Cidadão Kane (1941), longe de uma sutileza que até poderia convencer o público da apelação comparativa. Insistir em tratar Silvio Santos como mártir em uma produção que aposta em uma sensibilidade e humanidade do apresentador já era de se esperar. No entanto, a exposição proveniente da armadilha sentimental acaba ofuscando uma amálgama criativa entre o lado pessoal e profissional do protagonista, fazendo com que a narrativa, em alguns momentos, deixe seu argumento inicial de lado.
De todos os atores que tentam imitar Silvio Santos, Leandro Hassum é o que menos esbanja qualquer semelhança. O que chega a ser irônico, pois sua imitação, repleta de tiques e frases de efeito tradicionais do apresentador, mesmo assim consegue ser comprada ao longo do filme. Seja pelo de o ator ter se encontrado confortável na interpretação do comunicador? Talvez, sim. Além de Hassum em seu sorriso franco e puro para um filme de terror, Manu Gavassi é o único nome do elenco a se destacar, mesmo entregando uma personagem caricata assim como o protagonista título.

A caricatura beira o exaustivo, tal como a desleixada representação do final da década de 1980 com perucas mal estilizadas, figurinos artificiais e cenários claustrofóbicos que sequer passam qualquer tipo de ambientação daquela época. No entanto, mesmo com tantos elementos que comprometem a estrutura formal do longa, Silvio Santos Vem Aí consegue empolgar graças ao ritmo e ao carisma dos protagonistas que, mesmo representados de maneira tão caricata por Leandro Hassum e Manu Gavassi, conseguem, de alguma forma quase inexplicável, gerar empatia e fazer com que o expectador queira saber o desfecho de suas histórias. Apesar de contar com outros nomes, como Regiane Alves, Gabriel Godoy e Marcelo Laham, o elenco se perde em personagens desinteressantes.
Longe de ser a melhor cinebiografia de um dos empresários e comunicadores mais importantes do Brasil, por ainda acreditar no pífio fator “endeusamento” capaz de jogar boas propostas no lixo, Silvio Santos Vem Aí, por outro lado, também está distante de receber um “vai pra lá” e merece receber, pelo menos, um singelo aviãozinho de bonificação.


