ter, 23 junho 2026

Crítica | Suspiria (Restauração 4K)

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Clássico. Essa palavra parece cada vez mais onipresente nas discussões acerca da arte hoje. Seja na literatura, na música ou no cinema, há sempre algo que se deve reverenciar ou referenciar como um altar intocável, que jamais poderá ser alcançado novamente. Há, nesse ínterim, os clássicos indiscutíveis — aqueles que estão na prateleira e cujo questionamento da presença é quase um ato herético. Poderia aqui escrever páginas sobre essa cultura intensificada à décima potência pelas redes sociais, ou substituir essas palavras por diversos filmes que caberiam dentro desta seção de clássicos da locadora, mas o foco deste texto é, talvez, um dos pilares do horror, onipresente no cânone do gênero: Suspiria, de Dario Argento, lançado em 1977 e que, desde então, é posto nessa prateleira supramencionada. Mas por quê? 

A versão restaurada em 4K (aliás, outro ponto a se discutir quando pensamos na cultura da nostalgia atual, mas que não cabe neste breve texto) chega aos cinemas deixando nítidos os motivos que fazem do longa algo incontornável. Tentando dar conta e já sabendo que fracassarei de forma retumbante, pontuo aqui o que são, para mim, três características ressaltadas pela nova versão. A primeira delas e, possivelmente, a mais lembrada, são as cores utilizadas pela fotografia de Luciano Tovoli. 

Evidente desde os primeiros minutos, Argento utiliza a iluminação como recurso visual essencial para a construção de uma atmosfera de incerteza; os tons de vermelho vibrante, azul e verde transformam a Academia de Dança em um ambiente em constante estado de ameaça. O vermelho que ilumina o rosto de Jessica Harper no momento em que a Mater Suspiriorum surge pela primeira vez intensifica não apenas o perigo, mas o sangue que escorre desde sua chegada à Alemanha. O antinaturalismo abraçado por Argento e Tovoli é fundamental para a construção estética do filme e o que, marcadamente, fez do longa uma obra perene no imaginário cinéfilo. 

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Esses tons também são trabalhados na arquitetura, com toques de art nouveau que o cineasta consegue transformar em um ambiente labiríntico, claustrofóbico e, ao mesmo tempo, vivo. Parece que todas as paredes escondem algum segredo e cada porta dá em um local que dificilmente levará de volta ao ponto inicial. Portanto, quando Suzy Banner, ao final, decodifica o segredo para acessar os corredores secretos da escola de dança, o que se observa é a abertura de um portal que estava sempre ali: nos passos, nas larvas, na luz, nos olhares esfíngicos de personagens jamais desvendados. Estar diante de Helena Markos é estar diante de todo o desequilíbrio que mantém aquele prédio em pé — um paradoxo proposital.

Essa intensificação, por sua vez, é potencializada pela trilha da banda Goblin, hoje profundamente imbricada na herança fílmica. O uso de sintetizadores, sussurros e percussão cria uma espécie de ataque aos sentidos. Observemos, por exemplo, a primeira morte do filme: ela resume a estética da obra ao trazer o horror através de um espetáculo plástico em que a luz e a geometria arquitetônica encurralam a vítima em composições cênicas firmes, intensificadas pela trilha sonora que dita um ritmo quase coreográfico à violência. 

É uma sequência que abraça a hipérbole visual e sonora, fazendo com que o assassinato alcance uma estética operística e barroca. É, sem dúvidas, um exercício de forma e estilo que não abandona suas bases narrativas em prol unicamente de uma visualidade; mais que isso, o estilo em Suspiria é tão protagonista quanto o terror de Suzy Banner pelo desconhecido. Em outros termos, a luz, a cenografia e a música se fundem em uma sequência de imagens que fazem do filme uma experiência sinestésica e, portanto, inesquecível. Assim, quando usamos o termo “clássico” para nos referirmos a Suspiria, é mais pelo sentido da influência que ele exerce sobre o que surge depois no gênero do que, de fato, um exercício canônico de colocar um filme em uma prateleira como um gesto egoico e excludente.

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