sáb, 18 julho 2026

Crítica | Synchronic

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Synchronic, novo filme da dupla Justin Benson e Aaron Moorhead, conta a história de Steve (Anthony Mackie) e Dennis (Jamie Dornan), amigos de longa data que trabalham como paramédicos para a polícia de Nova Orleans e, enquanto atravessam crises em suas vidas pessoais e familiares, precisam lidar com uma série de casos estranhos envolvendo uma nova droga sintética capaz de dar aos usuários a sensação de viajar no tempo.

Há algo de especialmente frustrante em filmes que partem de boas ideias, sugerem uma execução voltada a explorá-las e acabam por se sabotar, conformando-se em fazer de conceitos promissores meras muletas para um resultado genérico. E infelizmente é esse o caso aqui.

Em seus primeiros trinta minutos – ou algo próximo a isso –, Synchronic é capaz de exprimir sensorialmente suas potencialidades. No prólogo e nas sequências iniciais, os diretores conseguem estabelecer as bases do conceito-guia do filme de modo artesanal e provocativo. A ideia de viagem temporal lisérgica é não apenas apresentada enquanto motor da trama, mas efetivamente explorada na encenação. A câmera que passeia livremente pelos ambientes procurando ângulos heterodoxos, os planos-sequência encerrados por cortes tonais bruscos, a montagem que se vale de raccords de ruptura temporal, a fotografia que contrasta ambientes lúgubres, fechados, com paisagens abertas e saturadas, entre outros, são elementos mobilizados por Benson e Moorhead para dotar sua mise en scene de uma carga de desorientação temporal e espacial capaz de não só refletir, mas potencializar esteticamente as premissas do drama. Ao mesmo tempo, é nesse início que o filme flerta com códigos de gênero como o horror de exploração gráfica – gore –, a ficção científica e mesmo a fantasia sem, todavia, se comprometer com qualquer deles. Há uma maleabilidade semi-experimental em relação aos rumos do filme que se apresenta tão desafiadora quanto promissora ao espectador apresentado àquele universo.

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Conforme a narrativa avança, porém, toda essa gama de possibilidades traçada no primeiro ato parece se esvair. O filme deliberadamente estreita seu escopo e embarca num drama derivativo focado nas esferas pessoal e familiar dos personagens. É como se os autores tivessem medo das implicações e possíveis ramificações da ideia concebida por eles próprios como premissa e buscassem refúgio num rumo de apelos dramáticos mais primários. Temas como família, amizade e morte passam a compor o eixo central da obra e relegam o conceito inicialmente explorado ao papel de pano de fundo curioso.

Não há problema algum, em princípio, na utilização de ideias aparentemente complexas para retratar dramas básicos e universais. Várias das melhores ficções científicas, inclusive, para ficar só nesse gênero, o fazem. A questão, aqui, é o modo como isso é realizado. Synchronic opera numa transição abrupta. Abandona-se arbitrariamente o lado imaginativo da exploração imagética e sensorial do conceito orientador do filme e assume-se um drama genérico, buscando apelo na pressuposta facilidade de o espectador identificar-se com conflitos relativos a família, amizade, temor da morte e outros. Ocorre que essa divisão do filme em dois blocos – que, se conversam entre si sob a ótica da progressão narrativa, parecem totalmente isolados do ponto de vista do acúmulo, da construção da unidade da obra – acaba por comprometer até mesmo o investimento afetivo do público diante do drama apresentado. Como se importar com questões não pavimentadas e que chegam para tomar o protagonismo daquelas inicialmente apresentadas como norte? A familiaridade para com temas vistos como universais não é tudo, afinal. Pesa mais o dessabor de perceber que aquele início promissor existiu apenas para conferir um ar de grife, uma embalagem estética vazia ao que o filme realmente é.

Nesse sentido, Synchronic se apresenta como uma espécie de filhote sem musculatura do cinema de Christopher Nolan. O conceito rocambolesco como pano de fundo está lá. A necessidade de explicar exaustivamente e tornar exatas as definições desse conceito, roubando as possibilidades especulativas e imaginativas de que são dotadas as melhores ficções científicas, também está lá. O recurso a conflitos familiares genéricos para tentar assegurar a empatia do público geral e atribuir à obra uma impressão de relevância enquanto drama também marca presença. Faltam, porém, as virtudes. Não estão lá o senso de escala e a habilidade para construir a narrativa de maneira exasperante, em crescendo, com um ar de concretude dramática que, se é banal numa análise racional, ao menos consegue mobilizar os sentidos e erigir clímaces. E o resultado acaba sendo um filme que apenas promete e abandona suas promessas pelo meio do caminho.

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Felipe Lima
Felipe Limahttp://estacaonerd.com
Formado em Direito. Palpiteiro em Cinema.
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