seg, 4 julho 2022

Crítica | Tantas Almas

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A história da Colômbia foi marcada ao longo de mais de um século por conflitos sangrentos envolvendo uma constante instabilidade política, grupos paramilitares de maior expressão que o próprio exército nacional, guerrilhas lutando por uma mudança na estruturação do país e cartéis de drogas acumulando poder e riqueza. Em meio a um cenário desesperador viveu uma população debilitada de civis que se viu impotente perante os conflitos. É nesse cenário que Tantas Almas insere o espectador, no início dos anos 2000, numa região de rios onde a forma de sobrevivência se dá pela pesca e o poder das Autodefesas Unidas da Colômbia (ou AUC) se faz expressivo. O grupo paramilitar rotineiramente lida com a população local na base da brutalidade e a vítima mais recente dessa violência é José (José Arley de Jésus), um pescador que ao voltar para casa após o trabalho descobre ter perdido dois de seus três filhos num ataque da milícia à sua casa e isto o motiva a sair em uma jornada na busca de seus corpos desaparecidos.

José é o guia desta história, o filme se foca na experiência do protagonista para entregar da maneira mais crua que pode uma narrativa que toque o telespectador a partir da dor do luto e a violência presenciada pelo personagem. Tudo toma seu devido tempo para acontecer o que pode afastar parte dos espectadores, este é o tipo de filme que é honesto quanto à sua proposta desde o princípio, a câmera acompanha as ações sem pressa e seguindo quase sempre o mesmo movimento horizontal de um lado se movendo lentamente para o outro espelhando o fluir de um rio. O signo do rio inclusive dita muito da organização visual do filme uma vez que o protagonista é retratado como alguém constantemente navegando contra a correnteza tanto de maneira figurativa quanto literal.

A história se desenvolve de maneira orgânica, José parte em sua jornada, se depara com personagens pontuais que representam algum aspecto da organização social de sua região e segue sua busca. É construído de maneira muito competente o retrato de uma região desamparada, onde por vezes a natureza do conflito em que se vive nem é mais discutida e resta apenas estruturas de poder a serem mantidas. 

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O sentimentalismo potente do filme, porém, tem como maior adversário as suas próprias opções naturalistas na direção. O caminho percorrido por José é árduo e existe um crescimento do personagem após cada encontro, porém o ritmo do filme opta por prolongar cada passagem de um ponto de interesse a outro de maneira que se torne uma tarefa cansativa acompanhar o deslocamento de ponto A à ponto B. Existe uma objetividade nessa história que seria melhor explorada com uma edição mais enxuta.

Tantas Almas ainda assim guarda momentos inesperados ao se apoiar em elementos do misticismo para trazer um tom de fábula à história o que é ampliado por uma fotografia por vezes etérea que se apropria da natureza amazônica para engrandecer os momentos contemplativos de José. Religião e crenças regionais permeiam o imaginário dos personagens e servem como guia para a determinação do protagonista. 

Existe um interesse estético do filme que busca jogar com a densidade da floresta e uma iluminação naturalista para criar imagens marcantes. Corpos boiando no rio, silhuetas de soldados caminhando em suas margens são algumas das que mais se destacam. Imagens podem ser construídas pelo que aparece de fato em tela ou pelo que é sugerido e há bom balanço na produção que evita se jogar de vez na violência gráfica para se ater a pequenos momentos que repassam a sensação dessas ações violentas.

Ao fim da jornada de José, restam os sentimentos de exaustão e de impotência. Viver em função de um sistema que desvaloriza a vida parece uma tarefa sem sentido mas a vida segue de um modo ou de outro e histórias como essa simbolizam a persistência do homem nos ritos que o formaram (mesmo quando a lógica joga contra) e representam mais uma de tantas narrativas de resistência latino-americanas.

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Fabrizio Ferrohttps://estacaonerd.com/
Artista Visual de São Paulo-SP

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