ter, 18 junho 2024

Crítica | Tartarugas até lá Embaixo

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Gosto de abordar este tema frequentemente em meus textos, não por mera repetição, mas para garantir que meus leitores compreendam e assimilem: o cinema é sempre um reflexo do seu tempo. Cada filme lançado, seja ele de época ou contemporâneo, representa o contexto de sua produção. Isso nos leva a refletir sobre a posição do cinema na era da geração Z, uma geração marcada pelos hiperestímulos. Esses jovens cresceram rodeados por telas e um fluxo incessante de informações, ou seja, a mente deles (incluindo a minha) está constantemente recebendo novos dados, exigindo rapidez e objetividade, mesmo que às custas de um desenvolvimento mais aprofundado. Se a arte reflete o seu tempo, essa característica certamente se manifestaria no cinema.

Atualmente, estamos presenciando uma transformação significativa no cinema, especialmente no segmento infanto-juvenil. Se jovens, influenciados por plataformas como o TikTok, não conseguem se concentrar em um vídeo de dois minutos sem se sentirem inquietos, o que esperar de um filme de duas horas ou do chamado “slow cinema”? Tal como ocorreu em outras ocasiões, o cinema parece “morrer” para então se reinventar — confesso que encaro essa mudança com certo pessimismo. Nesse contexto, alguns filmes começaram a adaptar suas formas para lidar com os hiperestímulos, como é o caso de Aranhaverso. No entanto, foi o vencedor do Oscar Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo (EEAO) que possivelmente “moldou” o futuro do cinema de maneira mais significativa, seja para o bem ou para o mal. EEAO aborda a ideia de hiperestímulo de uma maneira que ressoa com a geração Z, agradando boa parte desse público. 

Diante disso, temos Tartarugas Até Lá Embaixo, um filme extremamente geracional não apenas em seu conteúdo, mas também em sua forma. Baseado no livro homônimo de John Green, o longa narra a história de Aza Holmes (Isabela Merced), uma adolescente de 16 anos que enfrenta o desafio de ser uma boa filha, amiga e aluna enquanto luta com uma enxurrada incessante de pensamentos invasivos e obsessivos que ela não consegue controlar. A trama se desenrola quando um bilionário local, foragido da polícia, desaparece misteriosamente, e uma generosa recompensa é oferecida por informações sobre seu paradeiro. Com a ajuda de sua melhor amiga, Daisy ( Cree Cicchino), Aza decide embarcar na missão de descobrir o que aconteceu com o bilionário desaparecido. 

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O filme, dirigido por Hannah Marks, claramente tem como público-alvo adolescentes, mas também pode atrair o interesse de terapeutas, dado seu foco em questões de saúde mental. Tartarugas Até Lá Embaixo comunica-se com seu público ao emular uma “mensagem” para jovens que estão passando por processos físicos e emocionais intensos, abordando de forma sensível e “realista” os desafios de viver com transtornos mentais. A obra explora várias nuances da formação de um jovem, destacando a importância de amizades verdadeiras, do apoio familiar e da busca por ajuda profissional, promovendo uma visão empática sobre as dificuldades enfrentadas por muitos adolescentes hoje em dia.

Embora, em alguns momentos, o longa recaia em uma espécie de genericidade comum no cinema contemporâneo de coming-of-age, ele lida com os temas de maneira competente. Às vezes, pode até parecer que romantiza os transtornos psicológicos, mas logo em seguida mostra que nem tudo é perfeito. Como estudante de psicologia, considero interessante a abordagem do filme, que parte da ideia de que você não é definido apenas pelo seu transtorno. Seja alguém com TEA (Transtorno do Espectro Autista), TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) ou TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo), é possível ter uma vida plena, mesmo que sempre existam dias ruins. Aza Holmes representa uma geração que luta para encontrar um equilíbrio em meio a uma sociedade repleta de pressões e expectativas, tornando o filme “relevante” no cenário contemporâneo dos jovens na sociedade.

Como mencionei anteriormente, Tartarugas Até Lá Embaixo trabalha muito bem com o cinema da geração Z, tanto em seu conteúdo psicológico, altamente relevante nos dias de hoje, quanto em sua linguagem cinematográfica. É neste segundo aspecto que o filme realmente me cativa, ao abordar o universo da adolescência, incorporando os elementos de hiperestímulo que os jovens, habituados ao consumo de redes sociais, experimentam diariamente. O filme transpõe esse conceito para a narrativa ao manifestar a mente da protagonista através de hiperestímulos visuais, como nos cortes da montagem abruptos e agressivos e as sobreposições de imagens rápidas e experimentais. Essa técnica reflete a realidade mental de Aza e de muitos adolescentes dessa geração, que constantemente lidam com uma avalanche de pensamentos destrutivos.

O enredo maior, envolvendo o bilionário foragido, serve apenas como um ponto de partida para explorar as dores e a busca de identidade da protagonista — um artifício clássico do melodrama que “engana” o espectador ao utilizar um plot grandioso para, na verdade, tratar de sentimentos íntimos e diretos dos personagens. Embora este desenvolvimento possa não ser tão bem elaborado, acredito que, formalmente, o filme apresenta ideias muito interessantes para o cinema geracional. A maneira como o filme brinca com as imagens, traduzindo a confusão mental da protagonista para a tela, é expressivamente admirável. Apesar de utilizar uma narração em off que funciona como um monólogo expositivo dos sentimentos de Aza, a força das imagens é predominante. Isso me agrada profundamente, pois o cinema é, acima de tudo, uma arte visual, e a habilidade de lidar com esse aspecto sem se perder no fetichismo dos hiperestímulos é admirável.

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Caique Henry
Caique Henryhttp://estacaonerd.com
Entre viagens pelas galáxias com um mochileiro, aventuras nas vilas da Terra Média e meditações em busca da Força, encontrei minha verdadeira paixão: o cinema. Sou um amante fervoroso da sétima arte, sempre pronto para compartilhar minhas opiniões sobre filmes. Minha devoção? Cinema de gênero, onde me perco e me reencontro a cada nova obra.
Gosto de abordar este tema frequentemente em meus textos, não por mera repetição, mas para garantir que meus leitores compreendam e assimilem: o cinema é sempre um reflexo do seu tempo. Cada filme lançado, seja ele de época ou contemporâneo, representa o contexto de...Crítica | Tartarugas até lá Embaixo