Se a cor do verão – levando-se em conta o calendário americano – de 2023 foi o rosa Barbie, em 2024, por sua vez, o mundo da cultura pop foi banhado pelo verde brat, quando a cantora britânica, Charli xcx, anunciou seu novo álbum com uma estética minimalista, consistente em nada além de uma capa verde neon com o título escrito em letras minúsculas pretas. A repercussão dentro de bolhas específicas foi imediata e, antes mesmo do seu lançamento, já se começava a criar um fenômeno cultural, que viria a ganhar proporções imprevisíveis. Junto com o hit, veio, também, a pressão para manter o momentum vivo pelo máximo tempo possível.
A partir desse cenário, The Moment propõe a ficcionalização de um evento muito real: o verão brat e a tentativa de imortaliza-lo. Idealizado, produzido e atuado por Charli xcx – no papel dela mesma, ao lado de personagens fictícios e celebridades interpretando uma versão exagerada de seus estereótipos – o filme transborda a identidade de sua musa, que perpassa desde a fotografia com tons esverdeados e luzes piscantes que remetem a uma festa interminável, até seu humor tipicamente inglês.
O diretor, Aidan Zamiri, utiliza-se de um formato pseudo documental para satirizar a forma como a indústria musical explora jovens talentos, sempre tentando retirar-lhes qualquer controle criativo para coloca-los em caixas pré-estabelecidas, sem qualquer traço de originalidade, minando justamente a essência daquilo que, a priori, havia lhes dado fama. A câmera na mão faz com que The Moment pareça, ao mesmo tempo, um documentário biográfico e um found footage do pop, com excessos de zooms – propositalmente nada elegantes – que aproximam o público de seu objeto de estudo, confinando-a na prisão da tela como um reflexo de seu estado de espírito enclausurado. A contrário senso, quando há intensão de comunicar seu afastamento, isolamento ou alienação, filma-a através de janelas, mantendo-a presa, porém separada do espectador por uma barreira física (e metafórica).

Quanto mais a situação foge de seu controle, mais a filmagem permite-se ser igualmente “descontrolada” – não confundir com despropositada ou descuidada – abraçando o caos mental da protagonista, enquanto o diretor incorpora barulhos ansiogênicos – como celulares tocando – até essa confusão culminar, literalmente, em sangue, quando um copo quebra junto com Charli – na cena exata em que ela se rende às pressões. Desse ponto em diante, tomam conta as metáforas visuais, que não fossem tão bem encaixadas se tornariam clichês ao invés de cômicas, a exemplo do espelhando se estraçalhando após o recebimento de uma má-notícia ou a boneca da cantora despedaçando-se no chão.
O encerramento de uma era que começou de maneira tão icônica exigia um fim à sua altura, que chegou por meio desse divertido encontro entre uma jovem com um forte senso de identidade e uma clara visão artística, e um diretor estreante que, já em seu primeiro longa-metragem, demonstra não só domínio da técnica pela técnica, mas uma preocupação genuína em pensar na construção da imagem como forma de linguagem cinematográfica, combinando diferentes gêneros para contar essa história. E assim, Charli se despede do brat, matando seu passado para abrir novos caminhos e provando que ela foi e continua sendo o momento, prometendo ser também o futuro.


