Crítica | Tick, Tick…Boom!

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Não há uma regra específica para que sonhos sejam realizados. Na verdade, o ato de sonhar demanda uma coragem necessária para continuar passando por cima dos empecilhos que a vida naturalmente impõe e seguir com a idealização, mesmo que a realidade seja o maior contraste. A representação do choque entre o concreto e o imaginário pode vir, então, como encorajamento aos sonhadores, a exemplo de La La Land (2016), ou como uma estrada tortuosa e pouco estimulante – Frances Ha (2013) nos ensina isso da pior maneira. Apesar de ambos os filmes não terem uma linha retilínea de facilidade na hora de seus protagonistas perseguirem seus objetivos, ainda é implícito que vale a pena. O recente Tick. Tick… Boom! (2021), de Lin-Manuel Miranda, segue a fórmula da demonstração do desafio para atingir o sucesso e contempla as dores de ser artista e ter que manter seu desejo fincado no que é tangível.

O personagem central de Tick, Tick… Boom!  pode ser definido tanto como workaholic quanto como um gênio. Sendo uma autobiografia, Jonathan Larson, aqui interpretado por Andrew Garfield, é um compositor prestes a completar 30 anos que acredita que seu musical, atrelado a sua história desde os anos 80, pode alçá-lo ao estrelato. Embora seu maior sucesso tenha sido o posterior “Rent”, o jovem planejava transformar sua existência em teatro com seu musical autoral “Superbia”. Porém “Tick, Tick”, lançado antes de “Rent”, é que norteia o filme mediante a apresentação de cada número relatando o que foi a luta para realizar o seu tão sonhado espetáculo. Já o entorno de Jon,  ainda que pouco reparado pelo personagem, estava ruindo com a explosão de casos de enfermos com o vírus da AIDS. Assim como sua vida social e seus relacionamentos; amigos, namorada, e afins, foram diretamente impactados com a obsessão de Jon por sua peça. 

Se bem notado, Tick, Tick…Boom! é uma crítica fervorosa à tempos que mal haviam iniciado. A modernidade, batendo à porta na década de 90 com o estouro de computadores e tecnologia, é um dos elementos mais assustadores e limitantes para Jon. Afinal, o que é preciso fazer para destacar-se em uma selva de pedra denominada Nova York? A metrópole, desafiadora por si só, impregnava mais pressão para uma carreira bem sucedida na mente do protagonista, que, por sua vez, considerava sua idade como um ponto de conclusão. Conforme sua maturidade se tornava mais latente, Jon cedia a seus pensamentos intrusivos de que era tudo ou nada: ou sua profissão de diretor de teatro decolava, ou tudo se convertia em uma grande falta de significado. Na obra, o protagonista possui um talento acima da média e uma criatividade que modifica acontecimentos cotidianos – uma ida a uma casa nova, uma festa, etc.- em jingles e músicas competentes, mas, ao passo que reconhece seu dom, Jon se frustra pela dificuldade em fazê-lo valer. 

Logo, praticar sua arte vira um martírio. A melancolia e a estranheza de assistir uma decadência em todos os âmbitos da vida são exibidas em um formato de encenação no “Tick Tick” que, por mais que o público saiba que algum espetáculo de Jon sairá do papel, não há noção da maneira que o personagem escapará de seu próprio colapso. Os números musicais, ainda que a diegese não se decida no quesito de quando aquilo é real para os indivíduos em volta ou quando é somente uma performance típica de um musical, segue relatando a situação problemática do protagonista em uma mistura próxima de uma fábula em tom por vezes de desespero, por vezes de saudosismo e por vezes de alegria. O desfoque do cenário da cidade nova iorquina nos momentos em que Larson está fora de seu presente verdadeiro, é também uma amostra de que sua válvula de escape ainda assim convive com a realidade mutuamente, em que a cobrança não é algo onírico.

Para fazer viver Jonathan Larson, Andrew Garfield não só interpretou o compositor, mas também incorporou sua dor de não se ver em um rumo até que aprovassem o que ele é. E, de fato, suas composições refletiam seu ser mais subjetivo – ou expositivo?. Contudo, quem estava ao seu lado não era capaz de acompanhar sua dedicação compulsiva, e o maior medo do personagem acontecia: seu eu estava sendo perdido, não aproveitado. Cada um acrescentando a uma camada em putrefação da existência de Jon, Michael (Robin de Jésus), seu melhor amigo, e Susan (Alexandra Shipp) representam, participando também de ótimas canções, o coletivo que o protagonista anula, e o longa-metragem passeia bem por essas relações estremecidas ao dar importância ao apoio destes personagens. Vanessa Hudgens, outro nome famoso no elenco, é pouco aproveitada, mas não de um modo insuficiente. A personagem é o fio condutor, através de sua voz, dos sentimentos passados nas músicas de Jon em seu musical introdutório.

Lin-Manuel Miranda, ganhador do Tony e diretor de Hamilton, musical gravado direto do palco e adorado por muitos, sabe bem como guiar a transformação de músicas vindas de musicais para o mundo cinematográfico. De uma direção de atores impecável, visto a posição marcada de cada um e sua funcionalidade para um musical precisamente coreografado e bem organizado, o cineasta opera em um ritmo acelerado. Sem deixar diminuir a carga emocional da obra, que possui um enredo teoricamente simples, o artista faz malabarismos para expor uma narrativa de desilusão, com questões pertinentes – a manifestação de um político acerca dos “culpados” pela disseminação da AIDS funciona como esclarecimento do preconceito na época – e sobre um sonho intensivo. O roteiro, sensível ao tratar destes mesmos assuntos, unidos com a leveza da música e de um musical, peca apenas em abordar em ocorrências fora de contexto a temática mais polêmica do longa-metragem; no caso, o vírus da AIDS. Deixando isso de lado, o filme trabalha com a emotividade por meio do intuito de que Jon alcance o status de compositor reconhecido.

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Tick, Tick…Boom! separa o que é a garra por um sonho e o que é o devaneio. Se tratando de um compositor de tamanho reconhecimento, tal qual Jonathan Larson, é perigoso retratá-lo como um ser humano. Contudo, o longa-metragem se constitui com base nisso. De neurótico até inovador, o artista não sustenta o filme sozinho devido a sua boa rede de apoio, porém possui o lugar do criador do tom de suas músicas, que se encaixam em cada instante perpetuando ou invertendo sua proposta conforme a demanda da obra. A felicidade, a tristeza, o desânimo, a angústia, o menosprezo, a força de vontade, e as demais sensações, além de passarem pelo crivo de Andrew Garfield e sua interpretação de Jon, são demonstradas na estética condizente com uma grande cidade, e condizente com uma fantasia momentânea, mas persistente. Logo, o filme transita entre pólos que dificilmente combinam: a torcida pelo personagem e a ânsia de que ele atinja logo o que quer por sentir que só assim ele ficará em paz. De qualquer forma, Tick, Tick…Boom! apoia a ser sonhador, a ter um sonho, a sonhar e, eventualmente, acreditar nele. 

Revisão Crítica

NOTA
Laisa Limahttp://estacaonerd.com
Uma mistura fictícia de Grace Kelly, Catherine Deneuve e Brigitte Bardot versão subúrbio carioca do século 21.

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