qui, 13 junho 2024

Crítica | Todo Dia a Mesma Noite

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Um incêndio transforma a boate Kiss em um verdadeiro inferno. Os jovens que estavam lá não voltam para casa, e os pais começam uma busca pela cidade.

10 anos se passaram desde o terceiro pior acidente em casa noturna da história, que resultou no óbito de 242 pessoas, além de inúmeros feridos de forma física e emocionalmente. Baseado no livro “Todo Dia a Mesma Noite: A História não Contada da Boate Kiss” (2018), da jornalista e escritora Daniela Arbex, Todo Dia a Mesma Noite é uma minissérie que respeita a memória das vítimas, sensibilizando com a luta dos parentes que clamam pela justiça em um país corrompido, com intuito de intensificar ainda mais as denuncias contra os verdadeiros responsáveis pelo caso que, há 1 década, vem trucidando todos aqueles que foram afetados tanto direta quanto indiretamente.

A produção, que conta com a competente e minuciosa direção geral de Julia Rezende, através de um roteiro preciso assinado por Gustavo Lipsztein, revela a precariedade da justiça brasileira, abraçada a corrupção e a impunidade. Denúncias muito mais que bem vindas e empregadas firmemente ao longo dos 5 episódios da minissérie. Em cada capítulo, graças a coesão da escrita bem estruturada e convincente de Lipsztein, além da empatia que já sentimos pelas vítimas e sobreviventes do incêndio da boate Kiss, nos deparamos com um verdadeiro soco no estômago, recheado de indignação e revolta.

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Os dois primeiros episódios de “Todo Dia a Mesma Noite”, denominados “A Noite” e “O Luto”, talvez sejam os mais impactantes de toda a série, por reconstruir de forma detalhada a tragédia que ceifou a vida de 242 e mostrar como o luto afetou as famílias das vítimas, de forma sensível, que esbanja uma sincera delicadeza artística. A sequência do início do incêndio no teto da boate, que culminou na liberação do gás tóxico responsável pela maioria dos óbitos, é bem detalhada, contando com efeitos visuais práticos e computadorizados em perfeito equilíbrio, além de uma direção precisa e movimentos de câmera que prezam pela sensação claustrofóbica do momento, chegando a gerar uma extrema agonia.

Cena da minissérie Todo Dia a Mesma Noite. Netflix/Divulgação

Os episódios seguintes, “A Culpa”, “O Processo” e “Sem Fim”, são responsáveis por reconstituir as injustiças sofridas pelos pais das vítimas que se mobilizaram para garantir a punição dos verdadeiros responsáveis pela catástrofe, descobrindo esquemas envolvendo a Prefeitura e o Ministério Público de Santa Maria. A indignação pelo silêncio da justiça brasileira quanto ao caso torna-se um aperto no coração, além de gerar gritos de dor e revolta incapazes de serem ouvidos.

A série também ostentando uma direção de fotografia que valoriza as belas paisagens de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, com planos abertos, luzes naturais e tonalidades mais frias, remetendo ao luto. No cenário urbano, os planos são mais fechados, permanecendo os tons mais azulados. A direção e arte reconstrói sutilmente os cenários da cidade no início de 2013 e a trilha sonora, poderosa e sempre presente, também é um diferencial para o exímio trabalho técnico da produção.

O núcleo dos pais das vítimas da tragédia, em “Todo Dia a Mesma Noite”, conta com grandes nomes, como Debora Lamm, Thelmo Fernandes, Paulo Gorgulho, Bianca Byington, Leonardo Medeiros, Raquel Karro e Bel Kowarick. Todo o destaque vai para as atuações poderosas de Fernandes e Gorgulho, que interpretam Pedro e Ricardo, respectivamente. Já Paola Antonini, Nicolas Vargas, Manu Morelli, Luan Vieira, Miguel Roncato e Sandro Aliprandini interpretam os jovens vítimas do incêndio, tendo pouco tempo de tela, mas, ainda assim, passando toda inocência e sonhos de uma juventude tão promissora.

Netflix/Reprodução

A única crítica para a nova produção da Netflix é o modo caricato de mostrar os gaúchos na série, que são, na maioria, interpretados por atores de outros Estados. Há grandes artistas no Rio Grande do Sul e sotaques forçados, mesmo estando disfarçados de boas atuações (como é o caso daqui), podem gerar estranhamento.

Vale destacar que, em hipótese alguma, a Netflix utiliza da dor dos familiares para gerar entretenimento, em Todo Dia a Mesma Noite. O intuito da produção é exatamente ampliar as denúncias contra os acusados pelo tragédia e fazer com que o Brasil e o mundo não esqueça do que aconteceu naquele dia 27 de janeiro de 2013.

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Corajoso, triste, revoltante e extremamente necessário, Todo Dia a Mesma Noite é uma ode poderosa contra o silenciamento.

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