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    Crítica | Um Brinde Ao Sucesso

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    Um Brinde ao Sucesso, filme de Daniel Cohen, enfim chega aos cinemas brasileiros recheado de humor cínico e uma vontade provocativa. A história é focada em Léa ( Bérénice Bejo), uma vendedora de loja de departamentos que demonstra uma sensibilidade e honestidade fora do comum. Léa está em um momento de estabilidade tanto em sua carreira quanto em sua vida pessoal até, despretensiosamente, decidir publicar um romance que se torna um best-seller. A partir deste momento sua relação com as pessoas mais próximas de sua vida, Marc, Karine e Francis ( seu marido, sua melhor amiga e o marido de sua melhor amiga, respectivamente) é abalada.

    O sucesso repentino de Léa desestrutura toda a relação de dominância estabelecida dentro do seu grupo, Marc se vê ameaçado ao perceber o sucesso e sua companheira, Karine se sente inferiorizada pois sempre viu Léa como alguém a ser protegida e Francis enxerga no sucesso de Léa um exemplo, tentando desesperadamente se reconectar com seu lado criativo esperando que algo mude de fato em sua vida monótona. A partir destes sentimentos, o filme trabalha sequências bem humoradas que se apoiam no senso de ridículo da reação exagerada dos personagens em relação à protagonista e todas funcionam bem para desenvolver reflexões sobre uma certa fetichização do ser criativo.

    O filme usa desse momento de surto coletivo entre os coadjuvantes para desenvolver algumas provocações sobre a relação entre visibilidade e conteúdo, tentando encontrar um senso de genuíno no processo criativo que é simbolizado por Léa. Existe um ar de honestidade na protagonista que está muito mais interessada em simplesmente jogar para o mundo algo que está dentro de si e vê o retorno financeiro como um adicional e não como objetivo. É uma espécie de idealização do criador que antagoniza com o egoísmo intenso que recai sobre Marc e Karine, personagens que por boa parte do filme funcionam apenas como encarnações de toxicidade, extirpados de qualquer senso de empatia.


    É uma história que funciona mais na chave de tecer um comentário sobre expectativas da vida e uma compreensível estagnação para muitos que conseguem alcançar estabilidade. Nesse contexto de adultos em crise de idade vendo alguém de seu círculo ter um “desabrochar tardio” na vida, o filme se aproveita para achar humor nas relações problemáticas de Léa, mesmo que por muitas vezes esse humor não acerte. O personagem Francis, marido de Karine, por exemplo, possui uma relação muito mais sentimental com a ascensão de Léa, ele parece se sentir deixado para trás porém ainda conseguindo respeitar os esforços da personagem. Suas cenas representam mais um sentimento de reflexão sobre o seu momento de vida na medida em que ele vê Léa alcançar destaque. A partir daí tudo que lhe resta é uma busca por si próprio por meio de experiências criativas, é talvez o coadjuvante que gera mais empatia com o público e responsável pelas passagens de humor mais certeiro.

    Já Marc parece o mais inconsistente entre os coadjuvantes, seu arco é relacionado a inseguranças masculinas e a partir do momento em que sua esposa se torna famosa resta a ele uma vontade de ou invalidar suas conquistas ou projetar seus medos em sua companheira. Existe um crescimento dele a partir da segunda metade do filme, porém a conclusão de seu arco parece contraditória para o que estava sendo construído( apesar de ser realista).

    Por fim, Karine é quem mais entra em conflito com Léa. É a partir de diálogos envolvendo as duas que estão as cenas mais dramaticamente impactantes no longa, a personagem vivida por Florence Foresti é quem mais guarda um sentimento de inveja que busca canalizar em tentativas falhas de recriar o que fez sua amiga alcançar reconhecimento. Existe um questionamento superficial também sobre como relações com a mídia e redes sociais interferem na forma que uma pessoa se vê a partir desse arco narrativo. No final o filme busca ser muito consciente sobre o que está tentando fazer o que chega a ser um pouco frustrante, atrapalhando a experiência, parece faltar energia para ir mais fundo em certos assuntos ou libertar mais os atores para experimentar com o cinismo do texto. 

    Um Brinde ao Sucesso busca brincar com situações relacionáveis e reunir diversos pontos de discussão em uma narrativa que às vezes se atrapalha indo de um assunto para outro, apesar das boas intenções. É um filme divertido e leve que passa rápido, não deixa grande impressão por sua execução mas entrega questionamentos interessantes que podem ficar com o espectador para digerir por um tempo.

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