qui, 3 abril 2025

Crítica | Um Filme Minecraft

Publicidade

Qualquer pessoa que goste de jogos e tenha tido um PC ou console entre 2009 e 2025 já ouviu falar de Minecraft. Ou então, nem jogar precisa, mas lembrar da famosa “era de ouro” dos YouTubers de Minecraft, quando, em meados de 2010, explodiram canais no YouTube postando vídeos de Minecraft, e criando uma comunidade que se expandiu até hoje. Como este que vos fala é nascido em 2003 e tinha um PC em 2015, passei boa parte da minha adolescência entrando no antigo Skype e passando horas jogando Minecraft com os amigos. Quase que um “evento canônico” na vida de qualquer pessoa, Minecraft foi um fenômeno no mundo dos games, sendo até hoje um dos jogos eletrônicos mais vendidos da história. Então imagine o hype que foi o anúncio de que esse jogo, em que tudo é apenas quadrado, iria para as telonas. Na direção deste projeto, Jared Hess, conhecido principalmente pelo filme ‘Napoleon Dynamite’ (2004), ‘Nacho Libre’ (2006) e pelo curta ‘Ninety-Five Senses’, indicado a melhor curta-animado no Oscar 2024, além de um elenco com Jack Black, Jason Mamoa e Danielle Brooks. Considerando os últimos lançamentos da Warner, especialmente ‘The Alto Knights: Máfia e Poder’, a Warner espera que ‘Um Filme Minecraft’ consiga atrair o público e trazer resultados significantes (positivamente) de bilheteria.

​Após serem transportados por um portal misterioso para o mundo cúbico de Overworld, Garrett “The Garbage Man” Garrison (interpretado por Jason Momoa), Henry (interpretado por Sebastian Eugene Hansen), Natalie (interpretada por Emma Myers) e Dawn (interpretada por Danielle Brooks) precisam unir forças com o experiente construtor Steve (interpretado por Jack Black) para enfrentar criaturas malignas.

Existe sempre um receio com adaptações de jogos para o cinema, mesmo que sua história não seja necessariamente a do jogo original. Lembrando muito de adaptações antigas já feitas e suas qualidades questionáveis (para dizer o mínimo), como as dos anos 90 com ‘Street Fighter – A Última Batalha’ (1994), ‘Super Mário Bros.’ (1993) ou ‘Mortal Kombat’ (1995), o público por muitos anos manteve esse afastamento de produções cinematográficas que explorasse algum jogo, mas isso mudou nos últimos anos, sobretudo com o sucesso de ‘Sonic – O Filme’ (2020) e suas sequências e ‘Super Mário Bros.’ (2023). Mesmo assim, os live-actions de histórias de “games” continuam causando polêmicas e reações mistas, como visto em ‘Uncharted – Fora do Mapa’ (2022), ‘Five Nights at Freddy’s – O Pesadelo Sem Fim’ (2023) e mais recentemente no péssimo ‘Borderlands’ (2024). O único grande projeto inspirado em jogos que conseguiu unir bem os elementos da obra original e uma história cinematográfica, pensando em grande público, foi a trilogia do ouriço azul e os dois filmes estrelados pelo The Rock de ‘Jumanji’ (2017 e 2019). Dado esse contexto, as possibilidades do que fazer com a história de Minecraft são várias, inclusive variando até do gênero da produção, mas parece que a Warner e Hess não quiseram sair do padrão e apostaram na receita básica para um filme de aventura nesse estilo.

Publicidade
Créditos: Warner Bros. Pictures/Legendary

Seguindo uma estrutura parecida com o que vimos em Jumanji, não tem muito o que se esconder quanto a história, é aquela estrutura padrão de uma narrativa que alinha o mundo e elementos do jogo com uma história de personagens humanos que precisam se relacionar, dentro disso tem o drama familiar, o herói esquecido, a relação da “equipe” tendo que superar um grande vilão e, lógico, a comédia. O diferencial é pela parte gráfica, que, particularmente, pensei que fosse ficar estranho, mas o CGI e os efeitos práticos agregam bastante a narrativa, sendo um dos pontos altos da produção. O maior destaque da obra acaba sendo exatamente o grande mérito do jogo, que é o discurso sobre a criatividade e sobre um “mundo em que tudo é possível”, algo apresentado logo na sequência inicial, em que Steve está narrando sobre o mundo e contando sobre cada construção criada enquanto comenta justamente sobre a imersão que o “mundo superior” lhe causou. Esse discurso poderia muito bem ser expandido durante o filme, principalmente levando em conta o personagem do Henry, que acabou de se mudar, tem dificuldades na escola nova e que embarca na aventura em um mundo perfeito para sua criatividade. Ao invés disso, a decupagem não faz questão de explorar isso, deixando Henry até de lado em muitos momentos. A impressão que fica é que a decupagem acelera muitas situações (ordens do estúdio, talvez?), não deixando o desenvolvimento dos personagens e de várias situações terem o devido peso, focando apenas em construir uma obra parecida com suas referências já citadas. Afinal, considerando a estética da obra, o que seria mais perfeito do que, exatamente, uma criança em um mundo criativo? Seguindo à risca a estrutura tradicional desses filmes, o diretor se preocupa mais na interação em tela do Jack Black e do Jason Momoa e apenas ignora outros pontos, terminando o próprio filme os deixando incompletos. Como se a própria obra desse alguns caminhos interessantes para seguir e no final acaba escolhendo apenas o mais acomodado, provavelmente para garantir a bilheteria tradicional de um projeto nesse estilo, sem querer se arriscar muito. Mesmo com esses problemas, existem sim bons momentos cômicos entre os personagens, que também acabam se separando em outros grupos no decorrer da história. Funcionam bastante as piadas em cenas com Garrett e Henry, por exemplo, assim como na relação entre Dawn e Natalie, ainda que sejam momentos isolados. No lado cômico, claro, o destaque vai para a presença do Jack Black em tela, em mais uma atuação “padrão Jack Black” de sua carreira.

Um Filme Minecraft acaba deixando lacunas promissoras abertas dentro de sua história, não aproveitando o potencial máximo que a própria obra mostra ter em sua sequência inicial, mas ainda assim é um projeto que sabe utilizar o humor e, principalmente, com um visual estético bastante interessante. Feito pensado no público-alvo, crianças, é uma boa opção para assistir com os pequenos nas telonas, com aquela tradicional mistura de aventura e comédia que agrada a família na plateia. 

Publicidade

Publicidade

Destaque

Crítica | Duplicidade

Em Duplicidade (Tyler Perry's Duplicity), acompanhamos a advogada Marley...

Crítica | Holland

A diretora Mimi Cave estreou na direção de longas...

Crítica | Um Terror de Parentes

Em Um Terror de Parentes (The Parenting), seguimos a...
Qualquer pessoa que goste de jogos e tenha tido um PC ou console entre 2009 e 2025 já ouviu falar de Minecraft. Ou então, nem jogar precisa, mas lembrar da famosa “era de ouro” dos YouTubers de Minecraft, quando, em meados de 2010, explodiram...Crítica | Um Filme Minecraft