Crítica | Um Lindo Dia na Vizinhança

Fred Rogers foi um carismático apresentador de um programa de TV, que surgira no final da década de 60, onde utilizava o lúdico para falar de temas do cotidiano, assistido por pessoas de 8 a 80 anos. Sua imagem, de pessoa centrada e bem resolvida, chamava bastante à atenção de todos, algo percebido por fãs, familiares e companheiros de trabalho. Um Lindo Dia na Vizinhança, porém, não é um filme sobre Rogers e, sim, sobre um homem comum, com problemas, como todos.

Tom Hanks stars as Mister Rogers in TriStar Pictures’ A BEAUTIFUL DAY IN THE NEIGHBORHOOD. Photo by: Lacey Terrell

Embora a alma do filme seja Fred, a diretora Marielle Heller conta a história de Lloyd Vogel (Matthew Rhys), um jornalista sobrecarregado psicologicamente, que fica encarregado de escrever um artigo sobre o apresentador. Lloyd é um homem cuja vida (aos seus olhos) nunca lhe foi generosa, apesar do sucesso como crítico, sempre carrega consigo os fantasmas do passado, inclusive uma mágoa pesada por seu pai, Jerry (Chris Cooper). Ao aceitar o trabalho, Vogel acaba se surpreendendo com os modos de seu entrevistado e, aos poucos, tornam-se cada dia mais íntimos. Detalhes de sua vida, relações pessoais, sua esposa (Susan Kelechi Watson) e filho e problemas são, pouco a pouco, temas principais em seus encontros formais.

Ao escolher tal abordagem, a direção torna o filme mais humano, pois várias camadas vão sendo adicionadas aos personagens, fazendo com que expectativas criadas pelo roteiro, num determinado momento, sejam derrubadas, dando lugar a novas e mais ricas camadas. A partir deste momento, o contraste comportamental entre Vogel e Rogers começa a ganhar mais peso, por conta da aprendizagem mútua. A externalização da humanidade do apresentador deixa Lloyd aberto, exposto, fazendo-o repensar toda sua vida, se é que fora uma vida, um dia.


O trabalho de fotografia é bom, principalmente em cenas do programa do Mister Rogers, quando a transição entre maquetes e lugares reais contrastam metaforicamente com os pontos de vista e a forma como os protagonistas enxergam e encaram seus demônios. A trilha sonora de Nate Heller (Poderia me Perdoar?, também da Marielle Heller) é carregada de melodias agradáveis e são a alma dentro deste corpo cinematográfico.

Como já se sabe, Tom Hanks é o nome do filme. Sua atuação é muito bem acertada em tudo, desde o figurino e maquiagem até pequenos vícios do apresentador, tudo bem fiel, claro, na medida de sua proposta. Quem assistiu a Uma Babá Quase Perfeita (1993) pode ter uma ideia das cenas memoráveis compostas por Tom, na pele de Rogers. Matthew Rhys está muito bem, sua expressão demonstra toda a carga psicológica que Lloyd vem trazendo consigo e, a transição da sua moral e de seu caráter emociona, mesmo sem querer. Cooper rouba a cena em alguns momentos, estes carregados de carga dramática e sarcasmo.

Um Lindo Dia na Vizinhança é um filme que pode surpreender pela forma como foi abordado, desconstruindo pontos de vista e tirando do altar conceitos prévios, com leves toques de humor, carga dramática crescente e atuações ótimas. Nas telonas no próximo dia 23.

NOTA

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