
Esse clássico terror mexicano é um ótimo exemplo do quão perverso pode chegar a maldade das crianças. Justamente por não possuírem um filtro quanto o jeito de se portar, e a “amizade” entre Flavia e Veronica transita na inveja, ódio, e uma maldade que soa natural ao longo do filme.
Veneno para as Fadas (1986), onde Verónica, uma órfã solitária e manipuladora, convence Flavia, sua colega ingênua e rica, de que é uma bruxa. A brincadeira inocente torna-se perigosa quando Verónica manipula Flávia para preparar um “veneno para fadas”, resultando em consequências macabras e trágicas.
O mais chocante, além dos atos cometidos pelas crianças ao longo do filme, é justamente essa relação distorcida entre as duas garotas. Enquanto Flavia enxerga um potencial de amizade para tirar o peso de ser a novata da escola, já Veronica mantém um interesse maligno para usar aquela criança para perpetuar e engrandecer o seu mal, não à toa, diz que quer ser a maior de todas as bruxas.

Essa relação entre as duas ganha camadas à medida que fica mais claro esse interesse invejoso de Veronica pela vida “perfeita” de Flavia. Ela diz que está fazendo um veneno para as inimigas das Bruxas, as fadas, mas observando os pequenos detalhes vemos que parece muito mais um ataque para roubar a vida de sua “amiga”.
E toda a naturalidade das crianças quanto à prática do mal ganha diferentes tons. Flavia se diz inconformado com suas aulas de piano e gostaria de dar um jeito nisso, e sua amiga Veronica se diz prestativa em ajudar ao convence-la a realizarem um pacto com o diabo. E tudo é mostrado de uma forma tão natural para aquelas crianças que beira a comédia no sentido de toda uma naturalidade para algo tão nefasto e assustador. Inclusive os poucos momentos dos adultos são encarnados ao não mostrarem seus rostos, ao melhor estilo Cartoon, com raras excessões quando os caminhos das meninas são interrompidos.
O filme se utiliza bem de suas limitações técnicas e a trilha caminha bem para ajudar esse tom macabro que o longa aborda com toda a situação envolvendo crianças. E ao seu final, fica um misto de sensações, uma vez que a relação abusiva é invertida e quem tínhamos ódio pode passar a ter pena e vice versa. E o ótimo trabalho das duas protagonistas, especialmente Veronica, exerceba o quão longe pode chegar a maldade de uma criança, onde muitas vezes não conseguimos ter a noção do potencial de algo inicialmente consideramos inocente.


