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Domingo de Clássicos | O Pagamento Final (1993)

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Uma das maiores obrigações dos fãs da sétima arte é conhecer o cinema de Brian De Palma, um dos diretores mais marcados pela obsessão. Em obras como Vestida Para Matar (1980), De Palma busca homenagear seu maior ídolo: Alfred Hitchcock, desde shots parecidos, a linguagem utilizada em diversos filmes remetendo situações parecidas com obras clássicas do mestre. Em O Pagamento Final, existe uma preocupação com a construção da Mise en Scene em seus diversos acontecimentos, deixando de lado uma linearidade lógica da construção narrativa, o diretor nos apresenta um outro tipo de realismo. Enquanto no longa Scarface (1983) acompanhamos a ascensão e queda trágica de um bandido marcado pela violência e vício, aqui, acompanhamos a tragédia inescapável de um “ex” bandido em busca de redenção.

Carlito Brigante (Al Pacino) é um traficante de drogas porto-riquenho que ganha liberdade condicional após cumprir apenas 5 dos 30 anos a que foi condenado. Ele quer mudar e viver honestamente, e aceita tomar conta de uma casa noturna na esperança de ganhar algum dinheiro para sair do país e montar seu próprio negócio. Porém velhos amigos e seu instinto para o crime o atraem de volta para a violência e a ilegalidade.

Temos aqui uma história clássica do herói trágico, uma busca desesperada e impossível pela paz, não  à toa, seu início é marcado por começar pelos momentos finais do filme. Em puro preto e branco acompanhamos Carlito em cima de uma maca após levar um tiro no metro, transformando a narrativa em uma espécie de  “Memórias póstumas de Brás Cubas” americanizado, o personagem recontando os acontecimentos e refletindo sobre suas escolhas, sejam boas ou ruins. Desejando se livrar definitivamente da vida bandida e alcançar o “paraíso” (literalmente), não são seus inimigos que o vencem, mas sim seu passado, suas escolhas, todo esse peso e legado que jamais serão esquecidos desde sua saída da prisão até o e retorno para a sociedade, mesmo com a promessa convicta no tribunal de ter se transformado em um novo homem.

A construção genial do personagem do Al Pacino é um combinado de roteiro, atuação e direção. O próprio cenário se transforma em algo opressor para o Carlito, desde as cores avermelhadas sintetizando o perigo que ele passou ou vai passar. Ele é sempre provocado, puxado de volta para algo que ele não deseja mais, seus diálogos revelam isso, sempre contando da oportunidade de ir para Bahamas e com a ajuda de um amigo, se transformar num vendedor de aluguel de carros, uma vida completamente comum. A cena da festa da casa de seu advogado deixa novamente muito claro a mentalidade de Carlito, totalmente distante das pessoas, das drogas, do sexo casual, apenas olhando o mar, o distante, pensando em seu sonho. E logo em seguida, o advogado pede sua ajuda para resgatar um bandido que fugiu de uma balsa prisão. O seu desejo não é maior que os acontecimentos que ocorrem durante o filme, sua natureza antiga é instintivamente ligada quando acontecem as tragédias.

O acompanhamento estilístico do diretor é algo obviamente presente, existe quase que comicamente uma despreocupação com a continuidade, alguns cortes realizados do nada e somos levados para outro momento importante da atual vida de Carlito. As cenas de romance também possuem esse arquétipo, ao som de You Are So Beatiful, de Joe Cocker, De Palma constrói um belíssimo romance entre Carlito e Gail iniciado com a reaproximação do casal, até chegar no fatídico momento da porta separando o amor guardado entre os dois (ótima homenagem para O Iluminado). O acompanhamento é feito usando o Plano Holandês, essa instabilidade constante na vida do ex bandido, o plano sequência e a câmera na mão evidenciam essa corrida sem fim do personagem, sempre com obstáculos no seu caminho tortuoso, seja o romance sem futuro ou os inevitáveis conflitos de gangsteres.

O Pagamento Final combina thriller e melodrama de forma magistral, traz um personagem excelente vivido por Al Pacino e sintetiza todo o poder do uso da imagem. Mesmo na tragédia ainda é possível encontrar a esperança, é isso que o personagem Carlito evidência no ultimo olhar, encarando a placa intitulada “Paradise”, imaginando sua mulher e filha vivendo uma vida feliz e satisfatória. A perseguição no trem, os últimos 20 minutos se revelam como um dos melhores da carreira do diretor, uma verdadeira aula de controle e tensão, e somos recompensados com um fechamento de ciclo. É um clássico subestimado dos anos 90, uma das maiores histórias de redenção do cinema norte americano. Quem diria que a prisão realmente mudou Carlito.

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