O diretor de Lino, Rafael Ribas, nos fez a gentileza de responder algumas perguntas sobre a animação e seu processo de trabalho. Agradecemos a oportunidade e os conhecimentos compartilhados. Esperamos que a entrevista elucide ao grande público um pouco sobre a produção de uma animação no Brasil e contribua aos futuros profissionais da área para conhecer um pouco mais o trabalho de Rafael Ribas e da StartAnima.

E.N: O quão desafiante foi fazer esse filme com o orçamento que você tinha?

R.R: Às vezes me perguntam “qual foi a parte mais difícil?”, “o que foi mais complicado?”. Eu sempre digo que estávamos dispostos a fazer um filme. Então, na minha cabeça, eu ia fazer esse filme de qualquer jeito. Eu só precisava do dinheiro. O desafio maior foi conseguir o recurso porque a ideia do Lino é do final de 2009, início de 2010. E o recurso já era um pouco limitado, no Brasil ficamos meio engessados por causa das leis. Então, se você não consegue um dinheiro bom, que é o que chamamos de dinheiro de marketing, você fica praticamente limitado a R$ 7 milhões. Apesar de parecer muito, no universo da animação, os filmes da Disney, como Carros 2, chegaram a custar 200 milhões de dólares. Imagine R$ 7 milhões contra R$ 700 milhões! Nós temos quase 100 vezes menos dinheiro! Sinceramente, eu sabia o que eu precisava fazer, o tamanho do filme, o que eu tinha que escrever, desde o roteiro, para fazê-lo possível. Muita gente, depois de pronto, critica que “falta isso”, “falta aquilo” ou “não conseguiu chegar até onde queria”, mas ninguém sabe verdadeiramente a realidade. É a mesma coisa de você chegar para alguém e falar: agora você vai ganhar 100 vezes menos e eu vou te cobrar a mesma coisa daquele cara que ganhar 100 vezes mais. Basicamente, o desafio foi que tivemos que planejar tudo, desde o primeiro lápis em cima do papel para criar um traço, um personagem; desde o primeiro parágrafo da história. Tudo isso estava super planejado para não fugirmos daquilo que com certeza íamos ter de recurso para fazer.

E.N: A animação produzida no Brasil ainda é pouco conhecida pelo grande público e o senso comum tem a ideia de que ela é “coisa para criança”. Isso foi um dos motivadores para querer produzir algo que atingisse todas as faixas etárias e atraísse os brasileiros para nossas produções?

 R.R: A resposta para essa questão é um pouco complicada. Principalmente aqui no Brasil, as pessoas realmente falam que “animação é coisa para criança”, lá fora você consegue um público maior, sobretudo porque os estúdios já estão estabilizados, têm uma fama e confiança do público. Qualquer produto que lançam e, como têm muito dinheiro e uma indústria criada para cinema, o produto fica melhor. Além disso, a animação é algo que dá lucro, então eles investem pesado. No nosso caso, não. De certa forma, eu também tenho a cabeça das pessoas que respondem que “animação no Brasil é coisa pra criança”. Com o Lino, eu continuo fazendo um filme para criança, ainda que ele não seja o Grilo Feliz e o Grilo Feliz 2 – que fizemos aqui na StartAnima e são filmes para criancinha mesmo, até pela forma de falar, de colocar as ideias. O Lino não é assim, é mais arejado, para toda família, mas não deixa de ser um filme para criança. Ele foi pensado como entretenimento, para ser um filme infantil, mas que contribua referencialmente para os pais, que acompanharão essa criança ao cinema. Tem algumas diversões para os pais, algumas brincadeiras dos anos 1980, algumas piadas que o pai entende mais que a criança. Até a forma de colocar as ideias é mais linear. Muitas vezes as pessoas acham que a história não tem a ver com o orçamento, mas tem sim! Tem muita coisa que nós temos que cortar por causa de recurso. Muitas vezes as pessoas falam “ah, a arte é linda, mas o roteiro poderia ser isso, aquilo…”, mas muitas vezes eu tive que fazer o roteiro daquela forma porque o recurso não me permitia explorar mais algumas coisas. Então, pensando em mercado, como eu faço animação há tanto tempo – a StartAnima tem 51 anos -, vendo tudo o que aconteceu ao longo dos anos, realmente o Lino foi um filme pensado para ser um filme comercial. Ele foi pensado para atingir as crianças sim. Eu não seria inteligente estrategicamente se eu quisesse atingir adolescentes, por exemplo, que é uma fase em que se deixa de ir ao cinema um pouco para assistir desenho para assistir coisas de super herói ou nem vão ao cinema. Infelizmente, falando de mercado, o Brasil não permite ainda que façamos um filme mais adulto porque é capaz da criança que vai consumir não gostar e o adulto não vai ver desenho. Então acontece o mesmo que ocorreu com alguns filmes que ganharam até festivais e, na bilheteria, não passam de 15, 20 mil pessoas. Isso é ruim pois estou pensando em uma continuidade, de continuar a parceria com a Fox, de produzir filmes com eles. Então temos que pensar num filme comercial que dá lucro para a distribuidora, para o cinema. É um ciclo, assim o patrocinador sabe que o filme foi bem, o logotipo dele foi exposto e ele voltará a dar dinheiro. Isso tudo vai girando. Se eu faço um filme muito cabeça, é arriscado eu errar a mão e não atingir ninguém. No Brasil, ainda continuamos a pensar nas crianças e acho que elas merecem.

E.N: Vocês intencionam atingir o mercado internacional com Lino. O que mudou no processo de distribuição de “O Grilo Feliz e os Insetos Gigantes” para essa produção?

 R.R: Lino foi pensado para ser um filme mais universal, que não se concentrasse em regiões. Inclusive tem gente que pergunta “por que a polícia parece americana?”. Eu respondo que está no imaginário das pessoas que assistem Sessão da Tarde que polícia tem uniforme azul e o carro é daquele jeito. A polícia tem uma grande participação no filme. Imagine se eu renderizar e trocar essas imagens para colocar “polícia” em português, depois em inglês. Tem gente que fala “ah, americanizou!”. Infelizmente, como não temos recurso para fazer duas, três vezes o mesmo filme, temos que optar por fazer uma coisa mais americanizada para ser aceito em qualquer lugar. Nós aceitamos coisas americanas aqui, mas não tenho certeza se aceitariam alguma coisa escrita em português nos Estados Unidos. Para que arriscar se temos tão pouco? O Lino foi pensado para ser bem universal. A animação também tem essa facilidade porque você pode simplesmente dublar, é um produto aceito em qualquer lugar, não são atores que são conhecidos em um país e no outro não. Inclusive o Lino está nas mãos de um agente da Fox, ele já começou a fazer vendas internacionais e isso, para nós, será muito bom para ajudar a dar credibilidade para o produto.

 E.N: A StartAnima já é consolidada no mercado. Você vê o planejamento como essencial para o trabalho do animador, incluso para a captação de verbas visando à execução do projeto? Que dicas você dá para quem está começando ou pensando em iniciar projetos em animação?

 R.R: Por muitos anos, a StartAnima produziu apenas material publicitário. O meu pai, Walbercy Ribas, na década de 1980, começou a ter ideia, quando ainda não haviam recursos via leis de incentivo, para fazer o filme. Ele queria sair dos 30 segundos da publicidade. A questão do planejamento é essencial. Volto a falar, aqui no Brasil, como temos os recursos muito limitados, o planejamento tem que ser feito desde quando você cria a história. Não adianta fazer uma coisa mirabolante, maravilhosa, apresentar para a distribuidora ou patrocinadores, e, na hora de executar, não conseguir. Aquilo vai ficar aquém do que foi vendido e será um produto ruim. Eu recebo muito e-mail, muita gente me liga falando “olha, tenho um roteiro maravilhoso”, “tenho a melhor ideia do mundo”, “esse roteiro vai te deixar milionário”. Eu ouço isso todo dia e a primeira coisa que temos que pensar é pensar como um todo, como um produto. O que adianta eu ter uma ideia mirabolante se não acertar o target ou não ter recurso para fazer? Temos que começar já pensando como produto, não apenas como uma ideia maravilhosa. A dica que dou para as pessoas é: pensem em se associar a indivíduos que captam recursos ou num roteiro que possa ter um product placement, mas que não seja agressivo. Colocar algumas coisas em que você conseguirá atrair incentivo ou patrocinador. Quando você vai numa distribuidora, você precisa ter um filme comercial, que atinja um público direcionado. Foi o que fizemos com o Lino, não dá para fugir disso: não vou atingir público de 12 anos para cima, que não irá ao cinema para ver desenho por ter vergonha e não vou focar nos pais, fazer um filme adulto para errar na mão e dar um público baixíssimo. Trate o negócio como negócio. 

 E.N: Em algum momento, você cede à experimentação e ao improviso ou é tudo muito bem calculado por causa do orçamento?

 R.R: Nunca improvisamos nada, por isso que falo que a pré-produção é uma das etapas mais importantes, que muita gente ignora ou faz meio rápido. Na pré-produção tem tudo: a história está pronta, a gravação de voz está pronta. O máximo que acontece é, quando você monta o Animatic e vai executar lá na frente a animação e, de repente, vê que não deu muita liga uma cena com a outra e precisa de uma adaptação. Ou você faz uma gravação de voz provisória, grava e coloca para ver como fica. De adaptação mesmo, tiveram três ou quatro adaptações no filme que, eu mesmo fiz a voz, gravei, o pessoal animou e depois o Selton Mello dublou. Improviso é inaceitável numa produção desse tamanho.

E.N: Vocês mantêm um acervo com documentações oriundas da produção de seus filmes? Isso ajuda na criação dos próximos? Você os consulta neste sentido?

 R.R: Por incrível que pareça não. Não utilizamos nada de uma filme para o outro porque são universos completamente diferentes. No Grilo, até que dava para utilizar alguma coisa, com objetivo de ter certa continuidade. No Lino, realmente não havia nada que utilizamos até como referência para fazer, por serem estilos completamente diferentes. Guardamos tudo sim, temos um acervo gigante desde os primeiros comerciais até todo o material do Lino: todos os desenhos, modelos em 3D e tudo mais.

 E.N: O quanto experimentar na prática diversas técnicas ao longo da graduação é importante para a formação dos alunos enquanto animadores?

 R.R: Eu acho essencial a experimentação. Para ter um pouco de bagagem para o Lino. Desde os 15 anos, eu aprendi desde pintar desenho, quando era acetato e eu acompanhava as coisas. Desde quanto era animação tradicional, eu ajudava a intervalar. Fiz muita coisa de stop motion. É importantíssimo você dirigir seu próprio curta, por pior que ele fique – os primeiros ficam realmente ruins -, mas é bom você dirigir, fazer o papel de produtor. Volto a falar, muita gente fala “ah, tenho uma ideia maravilhosa, agora, o que eu faço?”. É tentar abraçar tudo. No Brasil, nós precisamos abraçar tudo porque não temos tanto recurso assim para setorizar como empresas gigantescas. Tomara que um dia nós consigamos, porém, por ora, mesmo nós que estamos fazendo um longa e temos bastante apoio da Fox, não temos recursos. Cada um tem que fazer quatro, cinco funções e trabalhar demais – 13, 14 horas por dia. Quanto mais curso você fizer, mais se especializar, melhor. Muita gente aqui participou de várias etapas: entrou para desenhar, fazer concept art; depois fez texturização, se interessou para fazer roteiro. Tem gente que gosta muito de produção; outras que gostam de criar suas próprias coisas; outras de participar na sua função apenas. Porém, existem pessoas como eu que querem criar personagem, história e tudo mais. É importante demais passar por todas as técnicas até para você se achar, mas também acho que, o bom profissional é aquele que se especializa em alguma coisa. Temos muitos generalistas na nossa área, que ajudam muito. Para publicidade isso é fantástico, mas para um longa-metragem, que precisamos de gente boa em cada área, o cara não aguenta muito o tranco. É importante achar um caminho e não ficar a vida inteira experimentando porque, vai chegar uma hora que, você terá que se achar.

E.N: Em uma produção como Lino, o quanto você tem controle do processo criativo da obra final quando você divide as tarefas com outros animadores?

 R.R: Pelo menos no Lino, foi uma troca muito grande. Meu estilo de dirigir não é muito engessado, eu não sou daqueles que pega o storyboard e o Animatic, mostra para todo mundo e não peço a opinião de ninguém. Acho que o que fez o Lino crescer demais foi o diálogo entre os diretores de cada setor e equipe, bem como a liberdade que eu dei para eles. Eu sempre falava “olha, vamos começar a fazer o layout, o que vocês acham disso? Vamos ouvir o som e cortá-lo junto”. Eu cortei o som. “Vamos começar a discutir storyboard”. Muita coisa foi crescendo, o que é diferente do improviso que nós falamos. O que está na minha cabeça, nós não conseguimos passar 100% para o funcionário. Então é por isso que tem que ter gente muito boa porque o que ele vai captar é o que vai sair. Você não vai fazer tudo sozinho, não é um curta-metragem que você faz tudo sozinho. É muito importante essa sintonia, mas a troca também é muito importante. Muita coisa que eu imaginava me apresentaram de uma forma diferente e eu achei muito melhor do que eu estava pensando. Então são tantos processos para fazer um filme que, apesar de termos controle sobre ele, ele é um mutante e está vivo. Na medida em que ele vai passando pelas mãos das pessoas, vai melhorando. Cabe a mim deixar que isso melhore e não piore. Em momento algum eu falarei “isso aqui está mais ou menos, mas deixa quieto.”. Às vezes me surpreendia, às vezes não. Quando não me surpreendia, eu pedia para fazer o que estava na minha cabeça mesmo e voltava, explicava tudo de novo. Mas muitas vezes eu fui surpreendido. É uma troca muito grande. Fazendo um filme, eu aprendi demais como muita gente. É fantástico, metade da minha equipe já está nos Estados Unidos e Canadá. É bom para eles. Sempre falei que é bom todo mundo se dedicar já que é uma coisa fantástica para a nossa vida, com certeza eles colheriam esses frutos – como estão. Eu acho ótimo que todo mundo que trabalho no Lino hoje está sendo reconhecido. O único lado ruim é que, com não temos uma indústria fortalecida aqui, acabamos perdendo esses talentos. Num próximo projeto, tem que começar tudo de novo: procurar gente, formar etc. O que também é muito bom para o mercado. O que é uma pena mesmo é que, alguns talentos seriam muito úteis para o resto da vida e eles foram embora.

E.N: Ainda que Lino não tenha uma brasilidade do ponto de vista de se localizar em alguma região do Brasil ou trazer características brasileiras, que mensagem ele pode nos passar enquanto obra produzida aqui?

 R.R: Eu acho que o que mais tem de Brasil no Lino é o fato de conseguirmos fazer um filme com 2 milhões de dólares. Eu garanto para todo mundo que, é o único lugar no mundo em que conseguirão fazer um filme com a qualidade do Lino é aqui no Brasil. O brasileiro realmente abraça a causa. Tem também o jeitinho brasileiro, mas é um povo que se doa muito, que é multifuncional. Só foi possível mesmo com essa garra que tem o brasileiro. O que tem de brasilidade no Lino é o fato de fazermos um filme com tão pouco, pelo menos 50 vezes menos do que uma produção da Blue Sky ou da Illumination, que costumam gastar cerca de 70 milhões de dólares. Só brasileiro mesmo para conseguir fazer com 2 milhões. Para quem for assistir, vai observar que eu não foquei em um local em específico, mas o filme tem essa coisa multirracial. Existem personagens negros, mulatos, índios, japoneses. É bem Brasil, você sai na rua e tem de tudo!

 E.N : Existem ideias para novas produções?

 R.R : Estamos com um edital que a StartAnima ganhou para desenvolver o Grilo Feliz 3, já está em desenvolvimento de roteiro. Eu tenho a ideia para o Lino 2, espero que ele vá bem nos cinemas para colocar essa ideia em prática. Há também a ideia de um roteiro original, completamente diferente, que talvez atingisse um público um pouco mais elevado, mas é um risco. Tem que realmente calcular esses riscos. Estamos produzindo agora um complemento da segunda temporada, com 52 episódios de Buzzu na Escola Intergalática, que foi comprada pela Universal Studios e, se tudo der certo, possivelmente poderá virar um longa-metragem. Estou torcendo para que isso aconteça e esses são nossos próximos projetos.  

Conselho do diretor :

Eu acho que para qualquer coisa que formos fazer na vida, precisamos nos organizar muito. O planejamento foi essencial, na pré-produção, mas quando começa a produção mesmo, se você não é organizado, é uma infinidade de coisas, de arquivos, projetos e pessoas. A organização é fundamental e, por isso, eu falo que também sou uma pessoa que gosta de dividir tarefas e buscar talentos. Na minha empresa existem dois diretores que têm 22 anos, que entraram no Lino e são pessoas maravilhosas, que demonstram muita boa vontade. Hoje estou confiando neles e passando até a direção de algumas coisas da série, gravação de som, leitura de roteiro. Muitas coisas algumas pessoas novas, que eu sinto que são organizadas, estão fazendo para mim. É essencial para uma empresa a organização.

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