qui, 3 abril 2025

Primeiras impressões | Maria e o Cangaço

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Maria e o Cangaço não é só mais uma revisita ao cangaço – é um mergulho visceral em um capítulo tenso da história brasileira, contado pelas mãos de uma mulher. A nova série do Disney+ troca a polidez das novelas por uma abordagem crua e intensa, acompanhando Maria de Déa (mais conhecida como Maria Bonita), interpretada por Ísis Valverde. Inspirada no livro Maria Bonita: Sexo, Violência e Mulheres no Cangaço, de Adriana Negreiros, a produção equilibra brutalidade e emoção ao recontar os últimos anos do bando de Lampião.

Copyright Disney+

O grande acerto está na humanização dos personagens. Maria não é só um ícone – é uma mulher apaixonada, contraditória, impulsiva. Ísis Valverde se distancia do mito para entregar uma figura de carne, osso e desejo. O mesmo acontece com Lampião (Júlio Andrade), que surge como um líder carismático, mas violento e cheio de falhas. A série não idealiza nem demoniza, apenas expõe – e isso a torna ainda mais poderosa.

Um dos aspectos mais marcantes da série é a forma como ela desmonta a romantização do cangaço. Embora muitas vezes retratados como heróis populares ou justiceiros que lutavam contra o sistema, os cangaceiros eram, acima de tudo, agentes de um ciclo brutal de violência. As mulheres, por exemplo, dificilmente entravam para o bando por vontade própria – muitas eram sequestradas e violentadas, criando um clima de terror entre as sertanejas. Se um cangaceiro demonstrasse interesse por uma moça ou menina, nada poderia ser feito para impedi-lo. Esse cenário derruba a ideia de que os cangaceiros eram apenas inimigos da opressão estatal, já que, na prática, o povo sertanejo estava à mercê tanto deles quanto das volantes, forças policiais igualmente violentas.

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Maria Bonita foi uma exceção. Seu ingresso no bando não apenas trouxe algumas mudanças para as mulheres do cangaço, mas também marcou um ponto de virada na narrativa histórica. Ainda assim, o ambiente continuava extremamente machista e opressor. Há quem diga que a relação entre os cangaceiros e suas companheiras era baseada no amor, mas a série mostra como essas mulheres, na verdade, apenas encontravam formas de sobreviver a um mundo hostil. Esse olhar feminino é um dos maiores méritos da produção, oferecendo uma perspectiva visceral de uma história que, por décadas, foi contada sob o viés masculino.

Visualmente, Maria e o Cangaço foge da glamourização do sertão. A fotografia de Adrian Teijido aposta em tons terrosos, luz dura e planos contemplativos que reforçam a tensão constante. A poeira nunca baixa, e a atmosfera é de perigo iminente. O ritmo da narrativa também colabora: em vez de uma linha do tempo convencional, a trama alterna memórias, sonhos e realidade, construindo camadas que exigem atenção do público, mas entregam uma experiência rica e imersiva.

Copyright Disney+

A força feminina é um dos eixos centrais. As cangaceiras aparecem como estratégicas e ativas, longe do papel de meras coadjuvantes. Sem discursos panfletários, a série expõe a violência, o apagamento e o silenciamento histórico das mulheres no cangaço, ao mesmo tempo em que destaca sua coragem e articulação política. Maria, por exemplo, se posiciona dentro do bando e, aos poucos, conquista respeito não apenas por ser a companheira de Lampião, mas por sua inteligência e força. No entanto, a série não ignora que essa “aceitação” vinha acompanhada de desafios e constantes desconfianças dos demais cangaceiros. A trilha sonora entra na mesma sintonia: pontual, intensa, funcionando quase como a voz interna de Maria em momentos-chave.

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Além do impacto narrativo, a série também ganha relevância por abordar um período que muitas vezes fica à margem das grandes produções nacionais. O cangaço ocorreu em meio ao governo de Getúlio Vargas (1898-1938), um período amplamente retratado sob a ótica política e urbana, mas pouco sob a perspectiva do sertão e da população nordestina. Nesse sentido, Maria e o Cangaço resgata uma parte essencial da história brasileira, trazendo nuances que desmistificam lendas e estereótipos.

Maria e o Cangaço não é uma série para consumo rápido ou para quem espera uma narrativa mastigada. Ela provoca, desafia e reconta uma história que passou tempo demais sendo vista sob a perspectiva errada. O cangaço aqui não é um conto romântico de justiceiros – é sobrevivência. E, no centro disso tudo, está Maria: uma mulher que amou, sofreu, lutou. E que agora pode, finalmente, contar sua própria história.

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