Título: Laranja Mecânica
Autor: Anthony Burgess
Tradução: Fábio Fernandes
Editora: Aleph
Ano: 2014
Especificações: Brochura | 191 páginas

Sinopse: A história de Alex, membro de uma violenta gangue de adolescentes que sai às ruas buscando divertimento de uma maneira um tanto controversa, incita profundas reflexões sobre temas atemporais, como o conceito de liberdade, a violência – seja ela social, física ou psicológica – e os limites da relação entre o Estado e o indivíduo.

 

Resenha | Laranja Mecânica

Tu já deves ter ouvido falar do filme “Laranja Mecânica”, dirigido por Stanley Kubrik. Mas, o livro, que tem ficado famosinho entre os blogs literários, pouca gente lembra, ou tem conhecimento.

A obra data de 1962, foi escrita por Anthony Burgess, à época, em seu último ano de vida. O autor tinha recebido um diagnóstico de câncer, o médico lhe deu um ano de vida. Período em que ele decidiu escrever o que seria seu último livro. A morte não veio, então ele teve tempo para revisar o texto, e assim surgiu o mito “Laranja Mecânica”.

Chamo de mito porque ele foi revolucionário, inovador, curioso, tornando-se um clássico da ficção inglesa, e um marco na história da cultura pop e da literatura distópica. Ele serviu de referência para William Gibson, para a Trilogia do Sprawl (sobre a qual já falei aqui), e muitos outros aurores. Tem uma linguagem própria e única. Ou seja, a “forma” do texto é grandiosa. Para vocês terem uma ideia, ele cria uma linguagem chamada Nadset, para a qual tem glossários e estudos publicados em alguns sites, e o narrador usa essa linguagem cheia de gírias para contar a estória.

É perturbador! Nas primeiras páginas eu não entendi coisa alguma. Tem um glossário no final do livro. Mas, eu o evitei, já que na Inglaterra e em outros países o livro é vendido sem esse “apoio”. O estranhamento é proposital, criado pelo autor para que sentíssemos esse distanciamento. Por isso fiz questão de ler sem consultar o glossário. No fim, acostumei e até usei algumas gírias no dia-a-dia sem querer “Ó, meus irmãos“.

A estória bem que poderia não ser uma distopia de tão crível nos dias de hoje. Atento aos movimentos da juventude de sua época, com sua linguagem, estilo e costumes próprios, Burgess criou um universo muito interessante. Imaginou e deu vida a personagens adolescentes inconsequentes, cheios de si, reunidos em gangs, espalhando o terror na noite ao cometer crimes violentos. Depois, eles voltam para suas casas, para o colo quentinho dos pais, para a escola, para os seus dias de preguiça.

Alex, personagem do filme Laranja Mecânica interpretado por Malcolm McDowell em 1971

As consequências dos seus atos, quem já viu o filme sabe mais ou menos. Isso porque o livro é dividido em três partes, que representam a evolução (se é que posso usar essa palavra) do personagem principal, Alex. O filme cortou a última parte, e é justamente aonde a história se torna viciante no livro. É onde tudo acontece, as reviravoltas e a “moral da história” fica mais evidente.

Há discussão sobre as tentativas de controle social por meio da descaracterização do indivíduo, da cerceação da liberdade, da repressão, da violência, da manipulação de apolitizados de um lado. E do outro, os interesses políticos e a ingenuidade estúpida da juventude (que se julga esperta como todos os jovens), e que acaba servindo de massa de manobra de um jeito ou de outro em meio ao jogo político.

Confesso que não lembro se fica evidente no filme que o Alex se curou coisa nenhuma, e que o controle que o sistema parece exercer sobre ele é maquiado, ora pela sua tentativa de ser esperto, ora pelo efeito que a sua índole má tem sobre o seu corpo após a sua “cura”.

Outro ponto, e que inclusive choca um pouco, é que o ator escolhido para o filme de Laranja Mecânica é mais velho. Nosso bom e destemido Alex tem apenas 15 anos quando começa a narrar a sua história. E ele vai preso e passa por um monte de coisas, e quando termina ele tem só 18 anos. Ou seja, o peso dos acontecimentos é outro quando se lê o livro.

Eu fiquei com ódio e com pena do personagem por diversas vezes. E no fim, nem sei dizer qual sensação prevaleceu. É tanta sacanagem de todos os lados, que fica difícil encontrar um vilão, ou culpar alguém que não chega a ser vítima do sistema, mas, que faz parte de um sistema que não merece muito respeito. Então, meio que tanto faz.

E essa confusão toda narrada pelo Alex me fez refletir bastante sobre o mundo e todas as coisas que vivemos hoje. A obra discute comportamento, amadurecimento, política, crítica social. Tem de tudo nesse “livrinho” de 191 páginas pra dar aquela bagunçada nas ideias da gente. Tem coisa melhor?

E se tem um lado bom dessa diferença do livro para filme, é que quem só assistiu ao filme tem a chance de conhecer uma história inédita e surpreendente.

Quem aí ficou afim de mergulhar nessa aventura?