Sábado de Clássicos | Edifício Master

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“Um edifício em Copacabana a uma esquina da praia. Duzentos e setenta e seis apartamentos conjugados. Uns quinhentos moradores. Doze andares. Vinte e três apartamentos por andar. Alugamos um apartamento no prédio por um mês. Com três equipes, filmamos a vida do prédio durante uma semana.”. É com essa narração em off que se inicia Edifício Master, lançado em 2002 e dirigido pelo célebre Eduardo Coutinho, maior documentarista da história do cinema brasileiro e dos maiores do mundo.

Por mais despretensiosa e meramente descritiva que pareça a apresentação do filme procedida pelo próprio realizador, há muito significado nesse pequeno excerto narrado logo após a primeira cena, que retrata, a partir de câmeras de segurança, as equipes de filmagem entrando no espaço físico do prédio. Coutinho sabe – e deixa claro ter essa consciência desde o início – que o material a ser filmado não lhe pertence. Ele e sua equipe estão ali como corpos estranhos a quem cabe a função de tentar capturar a partir de entrevistas com os moradores, ainda que de modo fragmentado, um pouco da realidade do prédio em todas as suas dimensões. Das particularidades dos indivíduos que o habitam à existência (ou não) de um senso de coletividade naqueles espaços. Do glamour de se tratar de um prédio próximo à praia numa “área nobre” da cidade do Rio de Janeiro à crueza do flagelo social que o circunda. Já em seu conceito, portanto, Edifício Master parece uma obra destinada a tratar das questões ligadas ao espaço ocupado por essa construção na arquitetura de uma cidade tão cheia de contradições como o Rio de Janeiro e da maneira como isso dialoga com a subjetividade dos seus moradores. E, de fato, essas são inquietações que permeiam o filme.

O grande mérito aqui, porém, é a forma como o diretor é capaz de extrair do seu material um grau de organicidade tal que o permite perpassar as problemáticas sugeridas pela já debatida natureza do objeto do filme, mas sem perder de vista em nenhum momento o real cerne da obra: a perspectiva das pessoas entrevistadas ao longo da projeção. Coutinho reconhece que, para além do peso da construção física dos espaços, é às pessoas que o habitam que pertence o passado, o presente e o futuro do local.

Estruturado a partir de um dispositivo simples – visita e entrevista a moradores –, o filme vai se deslocando de apartamento em apartamento, pontuando visualmente a pequenez dos cubículos onde as pessoas residem em contraposição com a enormidade do edifício e, mais do que isso, das vicissitudes do cenário social em que se situa. A cada visita, uma história que se comunica em maior ou menor grau com a do prédio. Cada uma delas, mesmo que não tomem muito tempo da projeção – os 110 minutos do filme contemplam cerca de 30 entrevistados –, é tratada com o devido carinho e atenção. A maneira como o diretor facilita e potencializa a expressão do íntimo dos entrevistados revela devoção ao que sabe ser sua maior preciosidade enquanto material-fonte: a vida e a visão daquelas pessoas. Assim, por exemplo, uma visita em que o entrevistado cita My Way, de Sinatra, como música de sua vida logo se transforma em um karaokê particular repleto de peso emocional. A própria decupagem das cenas, ainda que realizada de maneira mais livre e intuitiva, revela essa inclinação a extrair do peso das expressões das pessoas o significado maior da obra. Os entrevistados preenchem abundantemente a tela, quase como numa vingança pelo pouco espaço que ocupam em relação ao todo do prédio.

Justamente por reconhecer a primazia do olhar dos moradores como base do filme, o diretor não foge às complexidades daí advindas. Contradições ocupam a tela ao longo de toda a projeção. Relatos de pessoas que cresceram no edifício são intercalados por histórias de quem está apenas de passagem. Enquanto uns adoram a vizinhança, outros relatam a agonia de viver num local tão povoado. Há os que celebram morar em Copacabana e os que não suportam o grau de saturação social da região. Erige-se um mosaico multipolar de perspectivas sobre a existência naquele local que vai a todo tempo sendo integrado por uma nova visão, uma nova história de vida. Ganha corpo uma unidade do edifício enquanto identidade coletiva que está sempre em construção, em que conversam passado e presente, e que contempla em si todas essas contradições e é constituída e retroalimentada por elas.

Talvez o grande trunfo de Coutinho enquanto documentarista seja, na verdade, esse. O carinho dirigido à figura humana sem concessões o permite abordar o material que se lhe apresenta sem a intenção de domá-lo, de conformá-lo a uma visão preestabelecida daquela realidade. É uma autoralidade que se revela por meio da impessoalidade, como se ele soubesse que a verdade do material-fonte está lá em algum lugar e não lhe coubesse traduzir ela ao mundo, mas apenas facilitar sua própria expressão.

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E a expressão, no caso de Edifício Master, é ampla, dialética e contínua. Pertence a um dos entrevistados na mesma medida em que pertence a todos. Está no passado com a mesma importância que está no presente e nas expectativas de futuro. Bastante simbólico, portanto, que em certa passagem um dos entrevistados, após um dos relatos de maior peso dramático, questione à equipe: “parou? acabou?”, apenas para que a fala seja seguida por um corte brusco que levará o espectador a um novo apartamento onde será cumplice de uma nova história. E ao fim, na última entrevista, uma estudante, perguntada o que pretende ser quando crescer, diz que “não se imagina nada… só.”. Encerra-se a projeção com o fechar das cortinas dos apartamentos vistos de fora. São histórias que seguirão sendo escritas e reescritas, mas não mais às vistas da equipe e do espectador, já agraciados com um vislumbre delas.

Felipe Limahttp://estacaonerd.com
Formado em Direito. Palpiteiro em Cinema.

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