Emergência Radioativa, minissérie brasileira da Netflix, dramatiza o acidente com o Césio-137 ocorrido em Goiânia em 1987, o maior desastre radiológico do mundo fora de usinas. A trama foca no impacto humano, no descarte irregular de um aparelho de radioterapia e no trabalho de contenção.
Como dito, a minissérie é uma dramatização e como toda, licenças poéticas são aplicadas para dinamizar a trama. Nesse quesito a produção toma algumas decisões que divergem muito dos fatos reais. Todas essas mudanças são feitas para agregar elementos positivos ao material de origem, conseguindo transpor o caos da situação que estamos vendo de modo lógico, o que não aconteceu quando houve o incidente. As decisões na vida real, demoraram a serem tomadas, o negacionismo reinou sobre a situação ao longo de dias. Para o espectador tudo surge de modo dinâmico. Cada descoberta, cada situação tem uma resolução quase que imediata e dá ao público uma sensação de urgência para o desenvolvimento da história. Já outras situações foram mantidas como realmente aconteceram: o sacrifício de animais, a demolição de casas e a morte de determinados personagens. Essas e outras situações chocantes aconteceram e aparecem ou são citadas na produção. Esse equilíbrio entre realidade e ficção funciona muito bem e as mudanças apenas engrandecem a narrativa.

O caos crescente da situação é o ponto alto da produção. Os 60 minutos de duração dos episódios, passam voando. A tensão é palpável. A cada dia que vemos descobrimos como foi feita a verificação na população, nas casas, nos rios e as soluções adotadas para evitar o pior. A maquiagem é realista e choca, ao explorar os efeitos da síndrome aguda da radiação.
A direção de Fernando Coimbra (O Lobo Atrás da Porta) é sagaz e dá tempo para que seu elenco brilhe. Johnny Massaro (Aumenta Que É Rock’n Roll) funciona como interlocutor responsável por dar ao público as informações cientificas. Paulo Gorgulho (Todo Dia a Mesma Noite) é a voz da razão, Tuca Andrada (O Doutrinador) dá vida a um político que minimiza ao máximo a grave situação. Mas os grandes destaques são Bukassa Kabengele (Malês) e Ana Costa (7 Pecados Rurais) que dão vida a pessoas que tiveram suas vidas viradas do avesso.
Tudo relacionado a década de 80 é reproduzido com perfeição. Figurino, locais e ambientação são impecáveis. A fotografia é um dos grandes destaques. Vemos aqui e ali alguns planos típicos da TV da época, que são usados afim de emular as transmissões que falavam para o grande público o que estava acontecendo e que geravam o caos na capital de Goiás (e no resto do Brasil), pelo sensacionalismo das coberturas. A cena do ônibus radioativo é um exemplo disso.

Todos os acontecimentos são tratados como uma série de falhas humanas e erros que se acumularam e resultaram no acidente. O que decepciona, já que a produção toca em diversos temas dolorosos com coragem e coerência. No fim, a produção revela o que realmente aconteceu, e quem foi responsabilizado, mas na narrativa isso nunca é sentido verdadeiramente.
No fim, assim como o brilho azul do Césio-137, a minissérie Emergência Radioativa hipnotiza e prende a atenção do espectador, ao contar as histórias reais de diversas pessoas que tiveram suas vidas transformadas pela radiação. Assista o quanto antes essa produção imperdível!


