ter, 16 junho 2026

Crítica | Natal Amargo

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Pedro Almodóvar sempre encontrou no caos emocional uma de suas maiores forças narrativas. Em ‘Natal Amargo’, o seu 26° longa-metragem, o diretor retorna justamente para esse espaço onde amor, medo e solidão parecem caminhar juntos o tempo inteiro. O filme acompanha personagens emocionalmente fragilizados, presos entre inseguranças e uma constante sensação de perda iminente. E embora a narrativa demore um pouco para encontrar seu ritmo, existe algo muito honesto na forma como Almodóvar trabalha sentimentos tão desconfortáveis.

O aspecto mais interessante do filme está justamente na maneira como ele aborda ansiedade emocional. Não apenas como uma condição isolada, mas partindo do inevitável das relações humanas. Existe um medo constante atravessando os personagens, principalmente relacionado ao amor e à perda. Como se todos ali estivessem tentando desesperadamente manter algo vivo enquanto percebem lentamente que já não conseguem controlar seus próprios sentimentos. Essa sensação aparece muito forte na personagem Mónica (interpretada por Aitana Sánchez-Gijón), especialmente na reta final do filme, retratando a perda que Raúl (interpretado por Leonardo Sbaraglia) também teve. Almodóvar entende que algumas dores não desaparecem simplesmente porque seguimos em frente. Ele deixa em tela que elas continuam ocupando espaço dentro das pessoas, transformando a maneira como enxergam o mundo e os próprios relacionamentos. E é justamente por isso que o desfecho funciona tão bem. O diretor consegue transformar aquela bagunça emocional em algo muito humano, íntimo.

Créditos: Warner Bros. Pictures/El Deseo

Ao mesmo tempo, o longa também tenta discutir arte e criação através da metalinguagem. O problema é que nem sempre isso funciona da melhor forma dentro da rodagem. Principalmente no começo, o filme parece excessivamente preocupado em brincar com sua própria estrutura narrativa, criando uma sensação de desconexão que dificulta a aproximação emocional com os personagens. Há momentos em que a narrativa parece avançar de forma fragmentada demais, quase como se diferentes ideias estivessem disputando espaço dentro do mesmo longa. E isso afeta especialmente o segundo ato, na hora de desenvolver mais as coisas.

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Ainda assim, Almodóvar possui uma habilidade muito rara de reorganizar emocionalmente suas histórias quando elas mais precisam. E é exatamente isso que acontece aqui. Conforme o filme se aproxima do final, tudo começa lentamente a ganhar mais peso, mais sentido e mais humanidade. As relações passam a funcionar melhor, os conflitos emocionais encontram profundidade e a própria metalinguagem deixa de parecer apenas um recurso estilístico para se conectar diretamente com os sentimentos dos personagens. O resultado é um filme imperfeito, mas emocionalmente muito forte quando encontra seu equilíbrio. 

Natal Amargo’ talvez não funcione completamente em todos os momentos, especialmente pela irregularidade narrativa do início, mas consegue compensar isso através da sensibilidade com que aborda amor, ansiedade e fragilidade emocional dos personagens entre si e com a arte. 

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Rui Filho
Rui Filhohttp://estacaonerd.com
Recifense, cinéfilo e estudante de Cinema desde 2020, graduando em Publicidade e Propaganda. Apaixonado por arte, amante dos esportes, curioso sobre tudo e sempre em busca de algo novo para assistir.
Pedro Almodóvar sempre encontrou no caos emocional uma de suas maiores forças narrativas. Em ‘Natal Amargo’, o seu 26° longa-metragem, o diretor retorna justamente para esse espaço onde amor, medo e solidão parecem caminhar juntos o tempo inteiro. O filme acompanha personagens emocionalmente fragilizados,...Crítica | Natal Amargo