sex, 12 junho 2026

Crítica | Criadas

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Duas primas se reencontram após anos separadas, uma delas trabalha como assistente de cozinha em um restaurante e a outra luta para conseguir emprego como engenheira, passando por algumas infrutíferas entrevistas de emprego. Logo de cara é bem saliente a diferença entre as duas, desde a forma de se vestir até a de se comunicar. Mariana se porta com a confiança de quem nasceu em berço de ouro, fala pausadamente, com a cabeça sempre erguida, Sandra, por outro lado, é cabisbaixa, parece sempre um pouco ansiosa e desconfortável naquela casa, onde abrigam-se tantas lembranças.

Duas mulheres negras marcadas por experiências de vida tão distintas, porém interconectadas. Quando criança, a mãe de Sandra trabalhava como empregada na casa de Mariana, em um esquema de servidão moderna. Dentro da própria família, os abismos sociais separavam essas primas que cresceram juntas e, ao mesmo tempo, completamente distantes da realidade uma da outra. Agora, adultas, os níveis sociais das duas parecem mais próximos, contudo, as cicatrizes do passado ainda afastam-nas.

Conforme Sandra ascende na carreira, suas roupas e seu cabelo mudam, rendendo, inclusive, uma cena de makeover em frente ao espelho, que serve como ponto de virada na relação entre as personagens, os papéis se invertem, Mariana está na cozinha, servindo os convidados de Sandra. As novas vestimentas, o penteado empoderado e recém adquirida confiança colocam essa mulher no protagonismo de sua própria vida, até sua postura adquire novos contornos de imposição, também refletidos em sua fala. São mudanças sutis, perfeitamente incorporadas pela atriz, que se tornam definidoras do progresso daquela mulher.

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Apesar de tudo, essa “evolução” é agridoce, a roda precisa continuar girando e quando uma mulher preta subiu, a outra desceu, até porque para uma conseguir ser anfitriã de sua festa, a cozinha precisaria ser assumida. Antes disso, ressalta-se a presença de uma terceira mulher preta responsável por limpar e arrumar, enquanto as duas trabalhavam, a qual foi prontamente descartada quando não mais havia lugar para ela. Tanto no passado contado por flashbacks, quanto no presente o posto das “criadas” é invariavelmente ocupado por uma mulher preta. Tudo muda no microcosmo, enquanto no macro nada se altera, as relações de poder que oprimem esses corpos precisam continuar existindo.

Entre luzes coloridas histriônicas, a diretora explora a geografia da casa – onde se passa o filme todo – como metáfora – nem sempre discreta – das desigualdades. Os quartos e a cozinha ganham importantes papéis para determinar quem come e dorme onde e como. O local de descanso vira escritório improvisado, simbolizando a pessoa que continua dormindo e trabalhando naquela mesma residência, em circunstâncias radicalmente diversas. As dores só começam a ser curadas, quando barreiras físicas e simbólicas são literal e figurativamente destruídas a marretada, junto com aquele espaço e tudo por ele representado.

Um drama sobre casa assombrada, não necessariamente por fantasmas – ao menos não no sentido tradicional do termo -, mas sim por memórias mais assustadoras do que espíritos fictícios. O verdadeiro horror é indissociável do capitalismo, permeando esse sistema que depende da segregação de classes – racial e de gênero – para sobreviver.

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Raíssa Sanches
Raíssa Sancheshttp://estacaonerd.com
Formada em direito e apaixonada por cinema
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