Há uma regra não escrita das histórias de espionagem: confiar em alguém costuma ser o primeiro passo para acabar traído, sequestrado ou perseguido por uma organização criminosa internacional. Parceiras no Crime decide acrescentar uma pequena complicação a essa lógica. Imagine descobrir que sua melhor amiga de vinte anos, aquela com quem você troca livros, visita antiquários e reclama das reuniões do clube de leitura, na verdade é uma assassina profissional. É o tipo de revelação capaz de arruinar uma amizade. Ou, no caso da nova série do Prime Video, transformá-la em uma perseguição internacional repleta de tiros, explosões, mafiosos, agentes da Interpol e crises de meia-idade.
Criada por Tessa Coates, a série parece, à primeira vista, apenas mais uma brincadeira com os clichês da espionagem. Há organizações secretas, assassinos elegantes, chefes misteriosos, perseguições pela Europa e personagens que carregam passaportes falsos com a mesma naturalidade de quem leva um guarda-chuva. Mas basta um ou dois episódios para perceber que esse universo existe por um motivo bastante específico: colocar Debbie (Octavia Spencer) e Judith (Hannah Waddingham) diante da única missão que realmente importa, descobrir se uma amizade sobrevive quando uma das partes omitiu, durante duas décadas, um detalhe relativamente importante sobre a própria profissão.
O grande acerto de Parceiras no Crime é entender que o público não está ali para descobrir quem roubou qual arquivo confidencial ou qual organização criminosa controla o mercado clandestino da semana. Está ali para assistir Octavia Spencer e Hannah Waddingham dividindo a tela. Felizmente, a série também percebe isso.
Waddingham abraça Judith com uma segurança impressionante. Ela convence tanto quando está quebrando o braço de um mercenário quanto quando deixa escapar, por alguns segundos, o peso de uma vida inteira construída sobre mentiras. Existe uma vulnerabilidade escondida sob toda aquela postura de heroína de ação que impede a personagem de virar apenas uma versão feminina de John Wick usando roupas elegantes.
Spencer faz algo talvez mais difícil. Debbie poderia ser apenas a espectadora que serve para o público acompanhar aquele universo absurdo. Em vez disso, ela transforma a personagem na bússola emocional da série. Seu humor nunca depende da ingenuidade, mas da inteligência de alguém que está constantemente recalculando tudo o que acreditava saber sobre a própria vida.

O problema aparece justamente quando Parceiras no Crime começa a acreditar que sua conspiração internacional é mais interessante do que suas protagonistas. Entre mafiosos, Interpol, organizações secretas, assassinos rivais, traumas familiares e reviravoltas sucessivas, a narrativa passa boa parte da segunda metade tentando administrar mais tramas do que a história realmente comporta. Nada chega a desmoronar, mas oito episódios parecem alguns a mais do que essa história pede.
Existe uma ironia divertida em Parceiras no Crime. Durante anos, Hollywood insistiu que grandes aventuras de espionagem precisavam salvar o mundo. Aqui, ninguém parece muito preocupado com isso. O planeta continuará girando independentemente daquela missão. O que realmente está em jogo é uma amizade que sobreviveu ao casamento, à rotina, ao tempo e agora precisa sobreviver ao pequeno detalhe de que uma das duas ganha a vida eliminando pessoas por encomenda.
No fim das contas, essa acaba sendo a melhor surpresa da série. Não porque reinventa o gênero de espionagem, mas porque entende algo simples — perseguições de carro sempre ficam mais divertidas quando quem está discutindo no banco da frente parece duas melhores amigas brigando sobre quem esqueceu de avisar que trabalhava como assassina internacional. Convenhamos: esconder um emprego já é complicado. Esconder esse por vinte anos talvez seja a única missão realmente impossível da série.


