O Brasil ama true crimes. A prova disso é que vez ou outra produções do gênero são lançadas como séries ou filmes e fazem um sucesso estrondoso. Mas transformar crimes de grande repercussão nem sempre é fácil e o resultado pode não agradar. Para a alegria dos fãs do gênero, o filme Elize: Sombras de Uma Mulher, da Netflix, evita a armadilha do sensacionalismo e apresenta uma produção sóbria, que se interessa menos na violência do ato e mais na trajetória emocional que culminou nele.
Elize: Sombras de Uma Mulher dramatiza a trajetória de Elize Matsunaga, sua infância simples e mudança para São Paulo, até o casamento com o empresário Marcos Matsunaga e os conflitos que culminaram no assassinato de 2012.

O roteiro escrito pela dupla Roteiro Raphael Montes (Beleza Fatal) e Mariana Torres (Bom Dia, Verônica) concentra sua atenção na construção psicológica de seus protagonistas, principalmente, na de Elize. A narrativa investe tempo em revelar as inseguranças, medos e traumas que Elize tinha antes de cometer o crime. Além disso, o texto também apresenta as falhas de caráter que Marcos tinha ao manter sua relação amorosa. Com isso, a produção foge da convencional simplificação de vítima e vilão.
A direção do estreante Felipe Vellas não tem a intenção de mostrar a repercussão do crime, mas sim em compreender os fatos que levaram a ele ser cometido. Com isso, o diretor dá espaço para que seu elenco brilhe em cena. O casal protagonista, vividos pela espetacular Lorena Comparato (Impuros) e o talentoso Henrique Kimura (Corações Sujos), tem uma relação marca por abusos, manipulações e traumas, fatores que fazem o espectador entender a razão por trás do crime. Outro acerto da direção são nos momentos de grande tensão. A câmera prefere observar o que acontece, permitindo que as interpretações sustentem o peso dramático. Isso torna a experiência desconfortável, sendo um grande acerto.

A produção tem suas limitações. Em alguns momentos, a preocupação em explorar a subjetividade dos personagens acaba deixando aspectos como a passagem de tempo, um pouco confusa. Além disso, espectadores que esperam uma reconstrução detalhada podem sentir falta de uma abordagem mais abrangente dos acontecimentos posteriores ao crime. Mas nada disso, atrapalha a experiência.
Elize: Sombras de Uma Mulher reconta um caso policial famoso e constrói um drama psicológico consistente e inquietante, que convida o espectador a entender como uma sucessão de escolhas, conflitos e traumas podem levar a uma pessoa a cometer um crime.


