O cinema brasileiro volta a disputar o Leão de Ouro, principal prêmio do Festival de Cinema de Veneza, com a coprodução Itália – Brasil, “Retorno a Buenos Aires”, novo longa-metragem dirigido por Marco Bechis (“Alambrado”, “Hijos/Filhos”, “Terra Vermelha” e “Garage Olimpo”), que também assina o roteiro ao lado de Vijaya Bechis Boll. A produção integra a competição oficial da edição de 2026, uma das mais prestigiadas do cinema mundial. Estrelado pelo italiano Adriano Giannini, o filme reúne ainda os brasileiros Paula Cohen e Eduardo Hoy em papéis de destaque, além das atrizes argentinas Ana Celentano, Vero Gerez e Olivia Nuss.
Com três meses de pré-produção e quatro semanas de filmagens no Brasil, realizadas em Porto Alegre e mais três semanas em Turim, no Norte da Itália, o projeto também consolida a atuação internacional da produtora brasiliense 34 Filmes ea parceria com André Ristum, que já colaborou em diversos projetos anteriores. O filme teve participação destacada de técnicos brasileiros, entre os quais a direção de arte de Eduardo Antunes, a produção de elenco de Alessandra Tosi, o figurino de Coca Serpa, a produção executiva de André Ristum e Patrick de Jongh e o line producer Beto Rodrigues. A coprodução entre Brasil e Itália reúne a 34 Filmes e as italianas Fandango, 39Films, Karta Film e Rai Cinema.
Liderada por Patrick de Jongh, a 34 Filmes, que tem sede em Brasília, financiou o filme através do FSA (Fundo Setorial do Audiovisual), com recursos geridos pelo BRDE, por meio do Edital de coprodução internacional de 2024, como afirma o produtor: “A política de descentralização dos investimentos em cinema mais uma vez mostra resultados, e confirma a necessidade deste tipo de investimento para que mais regiões e realizadores brasileiros possam marcar presença em grandes eventos internacionais como o Festival de Veneza”.
A coprodução é resultado de uma parceria frutífera que já conta com vários projetos realizados entre a Sombumbo de André Ristum e a 34 Filmes. O produtor André Ristum enfatiza a grande admiração que tem pelo trabalho de Marco Bechis:
“Marco me mandou esse roteiro alguns anos atrás, e fiquei muito impactado. Somos próximos desde a produção do ‘Terra Vermelha’ e pra mim não era aceitável que um talento como ele ficasse tantos anos sem filmar. Levei o projeto para a 34 Filmes e fiquei muito feliz com a recepção e parceria deles para fazer o projeto dar certo”.
A parceria brasileira conta também com a Neocórtex de Cibele Amaral, que comenta sobre a terceira coprodução internacional da 34 Filmes que traz um resultado inédito:
“É uma grande alegria fazer parte da história do cinema brasileiro, tendo produzido o primeiro filme da região CONNE (região centro-oeste, norte e nordeste) selecionado para a competição principal do Festival de Veneza na história deste evento”.
Em “Retorno a Buenos Aires”, Mariano Guerra é chamado a retornar à Argentina para testemunhar no julgamento dos militares que o sequestraram e torturaram durante a ditadura militar — a mesma que, em 1978, organizou a Copa do Mundo de Futebol enquanto o país vivia sob uma repressão clandestina.
A história dialoga diretamente com a trajetória do próprio Bechis, preso político durante a ditadura argentina, experiência que marca sua filmografia e confere ao longa um caráter testemunhal. O encerramento das filmagens coincidiu simbolicamente com os 50 anos do início da ditadura na Argentina, em março de 1976, reforçando a atualidade da reflexão proposta pelo filme sobre memória, justiça e sobrevivência. “Com ‘Retorno a Buenos Aires’, volto à Argentina 50 anos depois. Volto com uma história que não é a minha, mas que nasce de uma ferida que conheço. Eu também fui sequestrado durante a ditadura argentina, mas Mariano não sou eu. Escolhi a ficção porque, às vezes, ela é a única forma de se aproximar de uma verdade que a memória, sozinha, não consegue contar. Durante muitos anos pensei que o cinema tivesse me libertado dessa pergunta. Percebi que não era assim. Há muitos anos uma questão me acompanha: o que significa sobreviver? Não apenas salvar-se, mas continuar vivendo quando outros não puderam fazê-lo. Mariano retorna a Buenos Aires para depor em um julgamento. Por meio dele, procurei contar esse momento em que o passado volta a ocupar o presente. Busquei uma direção essencial, sem explicar nem julgar. Interessavam-me os silêncios, os rostos, o tempo da espera, os lugares que conservam as marcas do que aconteceu. No fundo, este filme fala de uma única coisa: da culpa do sobrevivente, que persiste”, afirmou o diretor.
SINOPSE
Buenos Aires, 2008. Depois de trinta e três anos vividos na Itália, Mariano Guerra retorna à Argentina para depor no julgamento dos ex-militares que o sequestraram, torturaram e escravizaram durante a ditadura militar. Junto com outros sobreviventes, ele é hospedado nas instalações do Ministério da Justiça, onde reencontra pessoas com quem compartilhou o cativeiro e aguarda o dia de seu depoimento. Os dias passados ao lado dos demais sobreviventes, os encontros e os testemunhos trazem à tona acontecimentos que permaneceram sem resolução por décadas. Mariano é um dos poucos sobreviventes daquela tragédia e carrega consigo um peso que nenhuma sentença é capaz de aliviar.
O retorno a Buenos Aires o obriga a se confrontar com o que significa ter permanecido vivo.


